Financiamento climático e o papel das mulheres na transição ecológica
As conferências do clima são marcadas pelos grandes anúncios, mas é após o encerramento da agenda oficial que os verdadeiros desafios aparecem. É nesse momento que decisões diplomáticas precisam se converter em mudanças reais no cotidiano. Desde a COP30, realizada em Belém, Brasil, tenho acompanhado de perto esse percurso, buscando entender como as promessas feitas impactam efetivamente o dia a dia das pessoas.
Recentemente, a 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção do Clima da ONU (SB64), em Bonn, Alemanha, reuniu governos, diplomatas e representantes da sociedade civil para avançar nas negociações técnicas que sustentam as decisões das Conferências das Partes. Um tema chamou atenção: o financiamento climático sob a perspectiva de gênero.
Mulheres como protagonistas, não apenas beneficiárias
O debate internacional ainda tende a enxergar as mulheres sobretudo como um grupo vulnerável aos efeitos da crise climática. Embora esse diagnóstico seja relevante, ele não é suficiente. Em inúmeras comunidades, as mulheres desempenham papel central na transição ecológica. Elas lideram negócios socioambientais, cooperativas, iniciativas de agricultura sustentável e projetos de conservação que unem geração de renda e desenvolvimento local.
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O desafio não é incluí-las na agenda climática, pois elas já fazem parte dela. A questão é que os mecanismos de financiamento ainda não as reconhecem como lideranças econômicas que impulsionam essa transformação. Dados da SB64 mostram uma contradição: apesar do aumento da Assistência Oficial ao Desenvolvimento para ações relacionadas à igualdade de gênero, os investimentos que têm a promoção da igualdade como objetivo principal permanecem estagnados. No setor privado, 78% das operações de financiamento climático não incorporam sequer a perspectiva de gênero.
Mais do que a quantidade de recursos, o problema está na lógica de distribuição. O Fundo Verde para o Clima aponta que 86% dos seus projetos beneficiam mulheres, mas só 12% promovem mudanças estruturais. Tara Daniel, da Women and Gender Constituency, sintetizou o paradoxo: “Temos confundido processo com progresso”.
Transformar a estrutura para garantir acesso e impacto real
Cumprir protocolos e criar indicadores não basta quando as estruturas que determinam quem acessa crédito, investimento e inovação permanecem intactas. O próprio Fundo Verde para o Clima admite que não há consenso sobre o que define um investimento transformador em termos de gênero. Se não conseguimos definir essa transformação, fica difícil financiá-la.
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Enquanto isso, mulheres indígenas, produtoras rurais e empreendedoras de base no Brasil e no Sul Global enfrentam barreiras para acessar fundos internacionais. Isso é um contrassenso, visto que elas já oferecem soluções concretas para adaptação climática e fortalecimento das economias locais.
Os negócios socioambientais liderados por mulheres são iniciativas que movimentam economias, valorizam a sociobiodiversidade, fortalecem cadeias produtivas sustentáveis e ampliam a resiliência dos territórios. Financiá-los não é uma política compensatória, mas uma estratégia essencial para o desenvolvimento.
O verdadeiro legado da COP30 será medido pela capacidade de redesenhar a arquitetura do financiamento climático, reconhecendo esses empreendimentos como ativos estratégicos para a transição ecológica. O financiamento internacional precisa deixar de vê-las como destinatárias e passar a reconhecê-las como protagonistas econômicas do futuro que pretende construir.
