Como a Retórica do Ódio Afeta a Democracia
A erosionar do valor do voto enquanto um instrumento de cidadania evidencia uma crise mais profunda dentro da democracia representativa no Brasil. O que deveria ser um momento de reafirmação da soberania popular tem sido progressivamente dominado por uma lógica de confronto constante. Nesse cenário, o adversário político não é mais visto como parte legítima do jogo democrático, mas como um inimigo a ser eliminado. Essa distorção compromete o sentido republicano do voto, reduzindo sua função de mediação racional entre interesses divergentes.
Norberto Bobbio já alertava que a democracia não se sustenta apenas em regras formais, mas na cultura política que reconhece a legitimidade do dissenso, e é precisamente esse elemento que parece estar em colapso atualmente.
A Retórica do Ódio no Cenário Político Atual
O ambiente político atual é caracterizado por uma retórica de ódio, onde projetos para o país, o Estado ou o município são substituídos por estratégias de poder que priorizam a destruição simbólica e, em alguns casos, institucional do outro. Max Weber já havia alertado que a política é, por sua essência, uma disputa pelo poder. Contudo, ele também enfatizava que essa disputa precisa ser acompanhada de responsabilidade ética e um compromisso com fins coletivos. No Brasil contemporâneo, essa dimensão ética parece ter sido relegada a um segundo plano, dando lugar a uma racionalidade instrumental que prioriza a conquista e a manutenção do poder a qualquer custo.
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Como resultado direto dessa dinâmica, o cidadão se distancia do processo político, deixando de se sentir representado e assumindo um papel secundário — quase irrelevante — nas decisões que afetam sua vida.
A Banalização da Política e Seus Efeitos
A crítica de Hannah Arendt sobre a banalização da ação política encontra eco nesse contexto. Para Arendt, a política deveria ser um espaço de diálogo e construção coletiva. Contudo, ela se degrada quando se reduz a uma mera disputa de interesses, sem um horizonte comum. No Brasil, a substituição do debate aprofundado por narrativas simplificadoras e polarizadas empobrece o processo democrático e transforma o voto em um gesto reativo. Esse gesto é frequentemente impulsionado mais pelo medo e pela rejeição do outro do que por convicções programáticas.
Dessa forma, o eleitor se torna uma figura instrumentalizada, e não emancipada — um claro sinal de regressão democrática, onde a verdadeira essência do voto, como expressão da vontade popular, se perde em meio a um mar de desconfiança e hostilidade.
Em resumo, a crise do voto no Brasil é um reflexo de um ambiente político tóxico, onde o ódio prevalece sobre o diálogo e a construção coletiva. Para restaurar a legitimidade do voto e, consequentemente, a confiança na democracia, é fundamental que a sociedade retome o compromisso com a ética política e a valorização do dissenso. Somente assim será possível transformar o voto em um verdadeiro instrumento de cidadania, resgatando seu papel essencial na dinâmica democrática.
