Um Divisor de Águas na Política Brasileira
Há dez anos, a votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT) na Câmara dos Deputados não apenas resultou na sua destituição, mas também deixou uma marca indelével na política nacional, simbolizando a polarização que se intensificou desde então. Naquele 17 de abril, um muro de metal foi erguido na Esplanada dos Ministérios, separando multidões: de um lado, os defensores do impeachment, com camisetas amarelas; do outro, os que viam no ato uma ameaça à democracia, vestindo vermelho. O clima era tenso, e sem aquela barreira, é difícil imaginar o que poderia ter ocorrido naquele dia fatídico.
A polarização nunca mais deixou o cenário político brasileiro, e talvez este seja o legado mais persistente daquele momento histórico. O impeachment de Dilma não apenas selou seu destino político, mas também deu origem à chamada “nova direita” no país, um fenômeno que, por décadas, havia se acomodado em partidos que mais refletiam o antipetismo do que uma verdadeira ideologia conservadora.
Esta transformação culminou, dois anos depois, na ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, um movimento que mudou radicalmente a dinâmica política no Brasil. No entanto, naquele momento, Bolsonaro ainda era visto como um coadjuvante, um deputado folclórico cuja participação no impeachment se limitou a uma referência elogiosa a um torturador durante a votação. O impacto dele foi tão sutil que a edição da Folha do dia seguinte se referiu a ele como “polêmico deputado, ídolo da extrema direita”.
A Nova Era do Vocabulário Político
A polarização não apenas moldou os eventos políticos, mas também alterou a linguagem utilizada no debate público. O termo “golpe” ganhou novas conotações, passando a englobar ações que, embora constitucionais, suscitam debates acalorados. O uso das palavras “presidenta” ou “presidente” passou a indicar a filiação política do falante, revelando uma divisão que se aprofundou com o tempo.
As redes sociais, embora não dominassem o cenário político como hoje, já começavam a exercer influência. Apelidos como “Bessias”, associado ao indicado ao STF Jorge Messias, começaram a circular, e a famosa frase “tchau, querida” de Lula para Dilma logo se transformou em um slogan da oposição. O que era um telefonema interceptado naquele momento atual, provavelmente teria sido um áudio enviado via WhatsApp.
A ascensão de Michel Temer ao cargo de presidente interino, menos de um mês após o impeachment, também deixou sua marca. Temer se destacou não apenas pela lamentação de ser um “vice decorativo”, mas também pelas suas peculiaridades linguísticas, como seu uso de expressões em latim e seu estilo peculiar de se comunicar.
O Centrão e o Novo Cenário Político
O impeachment de Dilma também representou um importante fortalecimento do centrão, um bloco de deputados conhecido por sua pouca ideologia, mas que se tornou a base de sustentação do governo Temer. Desde então, seu poder tem crescido, em grande parte, impulsionado por emendas impositivas que hoje limitam a atuação do Executivo.
Gilberto Kassab se consolidou como um verdadeiro camaleão da política, sendo ministro de Dilma até momentos antes de sua destituição e imediatamente se aliando a Temer. O PSDB, por outro lado, também viu seu prestígio diminuir, embora ainda tenha contribuído para o novo governo por meio da indicação de ministros, como o das Relações Exteriores.
Por fim, é importante notar que o impeachment aconteceu sob o peso das denúncias da Operação Lava Jato. Esse contexto jurídico e moral foi um fator decisivo que influenciou o desfecho do processo, mais do que as pedaladas fiscais que serviram como justificativa formal. O que se viu, portanto, foi um momento de grande turbulência política que ainda ressoa nas discussões contemporâneas sobre a democracia e a governabilidade no Brasil.
