O Impacto da Conflituação no Agronegócio
No início do mês de abril de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um cessar-fogo de duas semanas em meio ao conflito com o Irã, mas a instabilidade na região continua a gerar preocupações significativas para o agronegócio brasileiro. A guerra no Irã não apenas ameaça a segurança da navegação no estreito de Ormuz, uma vital rota comercial, mas também coloca em risco o fornecimento de fertilizantes, especialmente a ureia, fundamental para a agricultura de larga escala.
O Brasil, que conta com a agricultura como um pilar da sua economia, enfrenta um desafio crítico, já que importa mais de 90% dos fertilizantes que utiliza. Bernardo Silva, diretor-executivo do Sinprifert, destaca que “a agricultura representa cerca de 30% do PIB, mas dependemos fortemente de insumos estrangeiros”. A situação é ainda mais complexa quando se considera que a alta nos preços dos fertilizantes pode gerar um efeito cascata, impactando os preços de alimentos básicos, como frango e carne bovina, já no segundo semestre deste ano.
Protestos e Preocupações no Setor Agrícola
No mesmo dia em que Trump fez seu anúncio, associações de agricultores do Brasil, como a AFCP e o Sindicape, realizaram manifestações em Recife (PE), solicitando apoio governamental para enfrentar a crise de suprimentos de fertilizantes. O relatório Focus do Banco Central já sinalizava um aumento de 4,6% na inflação dos alimentos até o final do ano, um reflexo das dificuldades enfrentadas pelo setor.
Surpreendentemente, o Brasil é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, mas ao mesmo tempo, enfrenta a posição de maior importador de fertilizantes do planeta. A dependência é alarmante, pois, além de fertilizantes, o país depende de importações para cerca de 75% de seus defensivos agrícolas. Historicamente, a Rússia tem sido a principal fornecedora do trio NPK (nitrogênio, fósforo e potássio), essenciais para a produtividade agrícola. Apesar das dificuldades decorrentes do conflito na Ucrânia, a Rússia ainda representa 25% das importações brasileiras de fertilizantes.
Parcerias Estratégicas e Desafios Futuros
Por outro lado, o Irã emergiu como um parceiro crítico no fornecimento de ureia, cuja produção está intimamente ligada ao gás natural. Em 2025, o Brasil importou US$ 72 milhões em fertilizantes do Irã, representando 80% das compras totais. Além disso, o Catar também é um fornecedor significativo, mas a instabilidade no Irã levanta questões sobre o futuro dessas importações. A relação comercial entre Brasil e Irã evoluiu nos últimos anos, com um sistema de barter facilitando o comércio, onde a produção agrícola brasileira é trocada por insumos químicos para fertilização.
No entanto, ataques recentes, como o ocorrido em Mahshahr, no Irã, que resultou em perdas humanas e danos à infraestrutura, aumentam a incerteza sobre a continuidade do fornecimento de ureia. “Não temos alternativas viáveis para a ureia”, adverte um especialista do setor. A ameaça de um colapso no fornecimento gera um clima de pessimismo entre os agricultores brasileiros, que já enfrentam uma situação financeira delicada.
Possíveis Soluções e Medidas Governamentais
Para mitigar os riscos, o Ministério da Agricultura do Brasil está adotando medidas estratégicas, como um acordo com a Turquia para facilitar o transporte e armazenamento de fertilizantes. Além disso, a Petrobras está reativando unidades de produção de fertilizantes, com expectativas de atender até 35% da demanda brasileira em breve. O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), que visa reduzir a dependência externa para 50% até 2050, também está em vigor, embora sua implementação dependa de apoio legislativo e político.
O diagnóstico do PNF é robusto, mas como ressalta Bernardo Silva, é fundamental que essa estratégia se transforme em ação efetiva. “Com a situação atual, o que precisamos agora é de vontade política para enfrentar essa crise. A guerra de hoje pode ser substituída por outro desafio amanhã”, conclui Silva. O futuro do agronegócio brasileiro depende de uma resposta rápida e eficiente diante da instabilidade geopolítica que afeta o mundo dos insumos agrícolas.
