Uma Inovação Sustentável na Amazônia
O que muitos consideram apenas um resíduo acumulado nas ruas de Macapá, para o engenheiro agrônomo Wesley Lamonier, representa a base de um negócio que combina economia circular e tecnologia agrícola. Proprietário de uma fábrica de biofertilizantes no Amapá, Lamonier criou um método para transformar o caroço do açaí — que chega a compor até 85% do peso do fruto — em biochar. Este condicionador de solo é capaz de reter nutrientes e também tem um papel importante na luta contra o aquecimento global.
No entanto, o caminho de Lamonier nem sempre foi repleto de sucesso. Antes de embarcar na biotecnologia, ele atuava como extensionista e produtor rural, cultivando mais de 5 mil pés de pimenta com a ajuda de uma equipe de oito funcionários. “Fiz um investimento logo antes da pandemia e acabei falindo, pegando-me de surpresa”, recorda Lamonier.
A crise gerou a necessidade de reinvenção. Ao perceber a grande quantidade de caroços de açaí sendo descartados na região, Lamonier identificou uma oportunidade de criar um produto que fosse tanto financeiramente viável quanto ecologicamente correto. “Produzir um fertilizante que ajudasse outras pessoas e, ao mesmo tempo, me beneficiasse, poderia se transformar em um negócio”, afirma.
O Impacto da Biotecnologia na Agricultura
Diferentemente dos fertilizantes químicos, que muitas vezes são lavados pelas chuvas ou acidificam a terra, o biochar atua como um verdadeiro “ímã” de nutrientes. Este material é obtido por meio de uma queima controlada e sustentável de matérias orgânicas, um processo conhecido como pirólise.
Segundo Lamonier, o efeito financeiro positivo para os produtores rurais é imediato e duradouro. “O biochar permite que o agricultor reduza em 30% a 50% a necessidade de adubação ao longo de sua vida naquela área, contrastando com o modelo tradicional de adubos químicos”, explica. Além de contribuir para a eficiência produtiva, o insumo preserva a saúde do solo, permitindo que ele armazene carbono em vez de liberar CO₂, o que se torna uma importante ação contra as mudanças climáticas.
Transformar essa ideia técnica em uma empresa viável demandou um bom planejamento financeiro. O primeiro passo foi conquistar a aprovação em um edital que resultou na captação inicial de R$ 80 mil. Este montante foi essencial para atrair novos investimentos.
Um Salto Para o Sucesso
O grande avanço ocorreu através do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), uma iniciativa da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) que selecionou dez inovações no Amapá. A startup de Lamonier triunfou na competição e obteve um prêmio de R$ 500 mil. “Esse recurso representou um marco que possibilitou a instalação de nossa fábrica piloto”, diz o empreendedor.
Hoje, a logística da empresa está perfeitamente integrada ao ritmo urbano de Macapá. A unidade produtiva recebe cerca de 20 toneladas de caroços de açaí diariamente, oriundos de colaborações com coletadores locais.
“Atualmente, eles recolhem essa biomassa das ruas, que antes iam para lixões ou eram queimadas. Compramos essa biomassa, promovendo a economia circular”, comenta Lamonier. A fábrica possui a capacidade de processar até duas toneladas de biofertilizante diariamente, com foco nos setores de horticultura e fruticultura, que são os principais consumidores de fertilizantes no agronegócio.
Um Projeto com Propósito
Para Lamonier, o sucesso da sua empreitada vai muito além das questões financeiras. “É uma alegria imensa retirar essa biomassa das ruas e devolver aos que produzem alimentos. Fazer a diferença na vida desses agricultores é o que me motiva a investir energia neste projeto”, finaliza.
