A violência política em um contexto eleitoral
O ano de 2024 se anuncia como um período de intensificação da violência política contra as mulheres no Brasil. Nos últimos anos, a incidência de atos machistas, racistas e misóginos tem se multiplicado, atingindo especialmente mulheres parlamentares. Os episódios variam desde o bloqueio de acesso a espaços políticos — em particular para aquelas que são negras, indígenas ou pertencem à comunidade LGBTQIA+ — até ofensas e ameaças graves, incluindo mensagens de ódio por e-mail ou redes sociais, que frequentemente incluem ameaças de morte e de estupro. Essa forma de violência não se limita às parlamentares, pois também afeta dirigentes partidárias e ativistas que corajosamente se lançam nas disputas eleitorais. A intenção por trás desses ataques é clara: intimidar, silenciar e afastar as mulheres do cenário político.
Além disso, a violência política afeta as mulheres de maneira desproporcional, com as mais vulneráveis, como as que pertencem a grupos de minoria, enfrentando níveis mais elevados de agressão. Infelizmente, esse fenômeno se estende a diferentes esferas de disputas de poder, incluindo organizações governamentais e não governamentais. A realidade é que, historicamente, os espaços de poder são dominados por homens.
O impacto do patriarcado na política
A violência política de gênero, cujos conceitos ainda carecem de consenso acadêmico, tem se agravado em um contexto que desvaloriza as mulheres. Segundo Olívia Santana, autora de “Mulher Preta na Política”, mesmo após a promulgação da Constituição de 1988, o controle político permanece nas mãos de homens brancos e ricos, que visam perpetuar a ideia de meritocracia, desconsiderando as múltiplas realidades sociais.
Os fatores que impulsionam essa violência incluem a ascensão de segmentos conservadores e antidemocráticos nos parlamentos. Calar as mulheres é, portanto, uma tentativa de silenciar a democracia. Contudo, a cultura do patriarcado ainda é a base das agressões, como aponta Heleieth Saffioti, e suas consequências se manifestam no controle exercido por grupos hegemônicos no sistema político.
Progressos e lacunas na representação feminina
Segundo o Mapa Mulheres na Política 2025, publicado pela ONU Mulheres e pela União Interparlamentar, o Brasil ocupa a 133ª posição em termos de representação feminina no parlamento, um índice muito abaixo da média da América Latina. Apesar disso, houve avanços significativos desde 2009, especialmente em relação ao financiamento de campanhas. Desde 2018, o Tribunal Superior Eleitoral determinou que pelo menos 30% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do Fundo Partidário sejam destinados a mulheres candidatas. Essa mudança, embora insuficiente, já resulta em um aumento da representação feminina, que subiu para 18% na Câmara dos Deputados e 19,75% no Senado após as eleições de 2022.
Um cenário de resistência e luta
A participação das mulheres na política não é apenas um direito, mas um pilar fundamental para a democracia. As mulheres já são responsáveis por mais da metade das famílias brasileiras e ocupam posições de destaque em diversas áreas. Sua luta por igualdade e justiça social é uma resposta à tentativa de silenciamento e controle. Contudo, essa luta é acompanhada de ameaças reais à integridade física e à vida das mulheres ativas politicamente, como demonstram os trágicos casos de Marielle Franco e Mãe Bernadete Pacífico.
As mulheres que se dispõem a resistir enfrentam um contexto de múltiplas violências, e é essencial que suas vozes sejam ouvidas na elaboração de políticas públicas. À medida que se aproxima mais um ano eleitoral, é fundamental apoiar e eleger mulheres comprometidas em garantir um futuro mais justo e democrático. A frente de batalha política será desafiadora, mas as mulheres continuam a resistir, reafirmando seu compromisso com a construção de uma sociedade equitativa. Como lembrou Silvia Federici, a luta delas é contínua, e sua coragem será testada mais uma vez.
