Desigualdade nas Vias Urbanas das Favelas Nordestinas
A análise realizada pela Agência Tatu sobre o Censo 2022 do IBGE trouxe à tona uma realidade alarmante: na Bahia, em Pernambuco e em Alagoas, menos de 50% das vias localizadas em favelas e comunidades urbanas têm largura e condições adequadas para a circulação de ônibus e caminhões. Essa realidade impacta diretamente o transporte coletivo, a coleta de lixo e o acesso a serviços emergenciais, revelando uma clara desigualdade no que diz respeito a mobilidade urbana.
Fora dessas áreas, a situação é substancialmente diferente. Nos mesmos estados, mais de 80% das vias são adequadas para a passagem de veículos de grande porte. Esse contraste acentua as disparidades entre as áreas urbanizadas e as favelas, onde os moradores enfrentam desafios diários simplesmente para se locomover.
Critérios para Avaliação da Circulação
O IBGE utiliza critérios rigorosos para avaliar a capacidade das vias urbanas, levando em consideração a largura das ruas e a presença de obstáculos como postes ou fios baixos. Essas análises são essenciais para determinar quais veículos podem transitar sem dificuldades. As ruas são classificadas em diferentes categorias, que vão de amplas, adequadas para ônibus e caminhões, a estreitas, onde apenas carros, motos ou pedestres conseguem passar, como becos e escadarias.
Um exemplo dramático dessa realidade é a história de Maria Clara França, uma universitária que residia em uma comunidade urbana no bairro Forene, em Maceió. Vivendo em uma rua sem pavimentação e cheia de buracos, ela enfrentava a dura rotina de ter que caminhar até o terminal mais próximo para pegar um único ônibus que atendia à sua região.
“Eu acordava às 4h50 da manhã, precisava caminhar mais de dez minutos para chegar ao terminal da Forene e passava duas horas no ônibus até o trabalho, no outro lado da cidade, e mais duas horas voltando para casa. Eram quatro horas da minha vida perdidas ali, sem contar o desconforto do trajeto. Muitas vezes, o ônibus já saía cheio, e eu tinha que ir em pé, suada, em um aperto tão grande que já vi pessoas passando mal dentro dele”, lembra Maria Clara.
Impactos na Vida dos Moradores
A situação, que já era complicada, se agravou quando as linhas de ônibus que atendiam à região foram alteradas. Isso forçou os moradores a buscarem terminais em bairros distantes, levando Maria a decidir deixar a casa dos pais em busca de melhores condições para estudar e trabalhar.
“É muito triste e revoltante ter que sair do conforto da casa dos meus pais para morar em outro lugar só para conseguir pegar um ônibus que preste. Mas agora, morando em um bairro diferente, tenho mais opções. Posso dormir mais, descansar melhor e não preciso acordar tão cedo, além de conseguir ir sentada”, afirma Maria.
A Invisibilidade da Favela e Seus Efeitos
Segundo o professor Fernando Rodrigues, docente e pesquisador do Instituto de Ciências Sociais (ICS), as desigualdades não se limitam apenas à diferença entre favelas e outras áreas urbanas. Dentro das próprias comunidades, esses problemas são evidentes e impactam diretamente o acesso a serviços essenciais, como a saúde.
“Um ponto crucial a ser destacado sobre a mobilidade é que a falta de vias adequadas dificulta o acesso à saúde para muitos moradores. Isso resulta em uma realidade onde as pessoas enfrentam enormes desafios ou, em muitos casos, simplesmente não têm seus direitos à saúde garantidos, devido às dificuldades de locomoção na cidade”, ressalta o professor Rodrigues.
