Início das Atividades do Territórios de Cuidado em Boa Vista
O projeto Territórios de Cuidado, que visa fortalecer a saúde e a sustentabilidade nas comunidades da Amazônia, deu início ao seu calendário de atividades de 2026 com uma oficina em Boa Vista, Roraima, no dia 4 deste mês. O evento, que marcou o começo das ações formativas do projeto, reuniu 58 lideranças de 18 movimentos sociais de Roraima, Amapá e Amazonas, os primeiros estados a receber essa proposta de formação-ação neste ano.
Destinado a lideranças de organizações e movimentos sociais que atuam na promoção da saúde, o programa também é voltado para participantes de conselhos de direitos, gestores e trabalhadores de instituições públicas. Segundo a pesquisadora Rosely Arantes, do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat) da Fiocruz Brasília, esse encontro simboliza um “encontro das águas” de saberes e vivências sobre promoção da saúde e participação social na Amazônia.
A Diversidade Cultural e a Presença Indígena
A região de Roraima é rica em confluências socioculturais, especialmente com as culturas do Amazonas e do Amapá. O evento em Boa Vista foi um reflexo da diversidade local, com uma forte presença de representantes de comunidades indígenas, quilombolas e povos ribeirinhos. Rosely destaca a relevância de mostrar as variadas formas de cuidado e saúde que estão enraizadas nos territórios.
“Essa é a grande proposta e desafio do projeto Territórios de Cuidado, que em 2026 inicia na Região Norte. Em Boa Vista, tivemos uma vasta representação dos segmentos do campo, do movimento de mulheres, de quilombolas e de povos e comunidades tradicionais, com predominância dos povos indígenas das etnias wapichana, macuxi, taurepang e patamona, que participaram ativamente”, afirmou.
A mesa de abertura do evento teve como foco a Promoção da saúde e territórios de cuidado, contando com a presença de figuras importantes como Raíssa Organista, do Ministério da Saúde, e representantes da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). O painel que seguiu, sobre práticas de cuidado nos territórios, se aprofundou nas experiências de cuidado construídas pela participação popular.
Iniciativas Locais e Saberes Ancestrais
Durante a oficina, diversas iniciativas locais se destacaram, especialmente produtos à base de ervas medicinais, como chás, sabonetes e remédios, que foram apresentados pelos movimentos sociais presentes. Rosely Arantes enfatizou a importância de reconhecer o cuidado como uma prática ancestral, que emerge da relação dos povos com a natureza. “Precisamos reconhecer a ciência desses povos e compreender o cuidado como uma perspectiva que vem do ambiente que os cerca”, concluiu.
Identidade Amazônica e Desafios Regionais
Os estados de Roraima, Amapá e Amazonas, apesar das dificuldades de isolamento geográfico, compartilham uma identidade forjada pela resistência cultural no bioma amazônico. Boa Vista, com sua capital menos populosa do Brasil, abriga uma significativa população indígena, segundo dados do IBGE de 2010. Além disso, é a única capital brasileira que se localiza totalmente acima da Linha do Equador, o que confere características climáticas e sociais únicas à região.
A interação com as fronteiras da Venezuela e da Guiana intensifica os fluxos migratórios, diversificando a composição urbana. O Amapá, conhecido como o estado que abriga a Linha do Equador, e o Amazonas, com sua cultura profundamente influenciada pelas águas, também refletem essa complexa confluência de identidades.
A Proposta do Projeto Territórios de Cuidado
O Territórios de Cuidado é uma iniciativa que visa articular lideranças de organizações e movimentos sociais, buscando promover saúde e inclusão social. O projeto inclui uma série de oficinas e cursos que abordarão temas relevantes, como a determinação social da saúde e a interculturalidade. A escolha dos territórios atendidos foi pautada por critérios que consideram a presença de movimentos sociais, vulnerabilidades sociais e a riqueza cultural dos locais.
Com um enfoque na promoção da saúde e na formação de redes de cuidado, o projeto é uma extensão das experiências da Fiocruz Brasília em ações de vigilância e saúde coletiva. Trata-se de uma parceria com o Departamento de Prevenção e Promoção da Saúde do Ministério da Saúde, visando construir um futuro mais saudável e sustentável para os povos da Amazônia.
