O Impacto da Tempestade no Agronegócio
O professor do Insper, Marcos Jank, analisa que o agronegócio brasileiro enfrentará os efeitos acumulados dos últimos anos, caracterizados por eventos significativos que moldaram o cenário atual. Entre 2021 e 2023, o setor foi profundamente impactado pela pandemia, pelas desordens nas cadeias de suprimento, a guerra na Ucrânia e a crise agrícola na Argentina, resultando em uma situação de preços elevados para as principais commodities agrícolas. Esse período, descrito como o de ‘dias de ouro’ pelo Santander, proporcionou margens lucrativas para os produtores rurais.
Contudo, Jank alerta que desde 2024, a realidade mudou drasticamente. ‘Estamos diante de um momento desafiador, com a queda nos preços das commodities e a valorização do dólar em níveis desfavoráveis. Além disso, enfrentamos custos elevados, margens reduzidas e um índice alarmante de recuperações judiciais’, ressalta o especialista. Para ele, após a bonança, o agronegócio agora se depara com uma tempestade perfeita.
Um Ajuste Necessário no Setor
De acordo com Jank, o cenário do agronegócio não é homogêneo; enquanto alguns enfrentam dificuldades severas, outros seguem em uma trajetória mais favorável. Os produtores que se endividaram excessivamente, adquirindo terras a preços altos ou investindo em maquinário sem um planejamento financeiro sólido, são os que mais sentem o impacto das taxas de juros elevadas. ‘Essa fase de ajuste se estenderá por 2025 e 2026’, enfatiza.
O especialista destaca que a produção agrícola brasileira não é uma realidade monolítica. Por exemplo, as safra recordes de soja e milho, que atingiram 170 milhões e 140 milhões de toneladas, respectivamente, beneficiam diretamente a produção de proteína animal, como aves e suínos. No entanto, esses bons números se tornam um desafio para os produtores de grãos, que se veem pressionados pela concorrência.
Ganhadores e Perdedores no Cenário Atual
Embora o desempenho de diferentes commodities varie, Jank observa que existe sempre uma dinâmica de ganhadores e perdedores. ‘O café está se saindo bem, enquanto o açúcar enfrenta dificuldades. As carnes de pequenos animais estão em uma situação mais favorável, enquanto soja e milho estão em um momento desafiador’, explica.
Os produtores que mantêm uma gestão eficiente e um baixo nível de endividamento têm mais chances de continuar lucrando e até mesmo expandindo seus negócios. Jank ressalta que crises de preços podem oferecer oportunidades de aquisição de ativos a preços mais acessíveis. Portanto, ele acredita que, apesar do ambiente difícil, haverá produtores progredindo, outros pouco impactados e alguns enfrentando sérias dificuldades. ‘Estamos diante de um período de ‘freio de arrumação’, não de uma parada brusca, após um ciclo de crescimento acelerado’, conclui o professor.
