Oportunidades e Desafios do Acordo Mercosul-UE
A recente aprovação provisória do acordo entre Mercosul e União Europeia (UE), ocorrida em 9 de janeiro, é considerada uma grande chance para o setor de produtos florestais. Essa iniciativa visa promover um controle rigoroso sobre a origem da madeira brasileira, tanto a que é exportada quanto a utilizada em diversas etapas da cadeia produtiva. Um ponto central desse debate é a luta contra o desmatamento ilegal, que tem sido uma preocupação constante para a UE e que pode trazer benefícios tanto para os produtores quanto para os consumidores brasileiros. Apesar da suspensão do acordo internacional, decorrente de um pedido de revisão jurídica pelo Parlamento Europeu, as expectativas do setor permanecem otimistas. Especialistas acreditam que essa suspensão apenas atrasará a efetivação do acordo entre Mercosul e UE.
Com a perspectiva de aumento das exportações de produtos florestais para o mercado europeu, que deverá se abrir gradualmente nos próximos anos, cresce a preocupação entre os produtores florestais acerca do uso de madeira não rastreável resultante de desmatamento ilegal. “A Europa exige rastreabilidade dos produtos, mas também devemos exigir isso internamente para garantir que toda madeira utilizada seja de origem legal e provenha de florestas plantadas ou autorizadas para uso”, ressalta Adriana Maugeri, presidente da Associação Mineira da Indústria Florestal (Amif) e da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Florestas Plantadas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Rastreabilidade como Vantagem Competitiva
A rastreabilidade é vista como uma oportunidade de aprimorar a qualidade dos produtos destinados à Europa, incluindo itens como cavaco de madeira, uma biomassa utilizada para geração de energia em caldeiras, como alternativa aos combustíveis fósseis. No acordo, o Brasil se comprometeu a reduzir seu desmatamento em mais de 50%. Adriana Maugeri acredita que isso pode resultar em produtos europeus mais acessíveis aos consumidores brasileiros, o que, por sua vez, concorreria com itens sensíveis do setor florestal, como alguns papéis especiais e embalagens. Porém, a presidente também alerta para a importância de um equilíbrio nas exigências feitas por setores europeus, para evitar a concorrência desleal.
O panorama é encorajador: em 2025, a União Europeia importou US$ 202 milhões e 410 mil toneladas de produtos florestais mineiros, sendo a celulose o principal item, representando quase 99% do valor das vendas nesse período. Papel, madeira e borracha também são produtos que têm a Europa como destino.
Impactos da Lei Antidesmatamento
Por outro lado, a preocupação com uma possível concorrência desleal tem mobilizado agricultores europeus, principalmente da França, Itália e Polônia, que exigem que os produtos do Mercosul atendam a rigorosas normas, incluindo a recente Lei Antidesmatamento da UE. Essa legislação, aprovada em 2023, proíbe a importação de produtos de áreas desmatadas após 2020. Embora a implementação da lei tenha sido adiada para o final de 2026, alguns setores do agronegócio local pleiteiam maior flexibilidade, argumentando que a rastreabilidade encarece a produção e impacta os pequenos agricultores.
Recentemente, cerca de 5,5 mil agricultores se manifestaram em Estrasburgo contra o acordo, alegando que os produtos da América do Sul não cumprem as mesmas normas e utilizam agrotóxicos não autorizados na UE. O acordo, que teve início em 1999, prevê a eliminação de 90% das tarifas entre os países dos dois blocos, mas os temores quanto à entrada de carne, soja, mel e arroz sul-americanos permanecem.
Minas Gerais na Vanguarda da Rastreabilidade
Minas Gerais já se destaca por seu sistema de rastreabilidade de produtos florestais, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O Selo Verde é uma certificação que atesta o cumprimento das exigências ambientais. “Alguns estados estão à frente, pois já implementaram mecanismos de rastreabilidade, como o Selo Verde em Minas Gerais”, afirma Adriana Maugeri.
A presidente enfatiza que a utilização em larga escala de mecanismos de rastreamento pode beneficiar pequenos e médios produtores, assegurando a origem legal dos produtos, essencial para atender às exigências do mercado europeu. Minas se posiciona como líder na produção de florestas plantadas no Brasil, com 2,3 milhões de hectares, equivalendo a 24% da cobertura nacional, e o eucalipto é a principal espécie plantada, representando 96,8% dos cultivos. A produção de carvão vegetal, essencial para a siderurgia, é responsável por 88% da produção nacional.
