Análise da Resposta do Acre à Pandemia
Um recente estudo acadêmico realizado pela Universidade de Montreal, no Canadá, revela que a maneira como os estados brasileiros enfrentaram a crise da Covid-19 estava profundamente ligada à sua capacidade estatal acumulada antes da pandemia. O Acre, em particular, se destacou entre os estados que apresentaram respostas mais fragmentadas e instáveis durante o período, ao lado do Amapá. Essa situação contrasta com estados como São Paulo e Ceará, que conseguiram implementar estratégias mais coesas e eficazes.
A pesquisa, coordenada pela pesquisadora Maria Alejandra Costa em colaboração com o professor de ciência política Éric Montpetit, examinou de maneira comparativa as ações dos governos estaduais brasileiros diante da crise sanitária. De acordo com os autores, desigualdades históricas na estrutura da saúde pública desempenham um papel crucial na explicação das variações observadas na capacidade de enfrentamento da pandemia.
A Capacidade Estatal e Seus Reflexos
Conforme descrito no estudo, a capacidade estatal refere-se ao conjunto de recursos, estruturas administrativas e competências institucionais que permitem que o governo responda de forma eficaz a crises de saúde. Essa capacidade é construída ao longo do tempo e não pode ser improvisada em situações emergenciais, como foi o caso da Covid-19.
No Acre, a pesquisa aponta que a escassez de investimentos regulares em saúde pública e vigilância epidemiológica antes da pandemia resultou em respostas irregulares. Tais respostas foram marcadas por frequentes mudanças de estratégia e falta de coordenação entre os órgãos técnicos. Por outro lado, estados que já tinham enfrentado epidemias anteriores, como malária e dengue, apresentaram uma estrutura operacional mais consolidada, com equipes experientes e sistemas de dados confiáveis.
Decisões Baseadas em Evidências
Estados que tinham se preparado melhor para epidemias anteriores foram capazes de aprimorar políticas existentes, tomar decisões fundamentadas em evidências científicas e garantir uma participação mais significativa de especialistas em saúde pública. Em contraste, no Acre, a fragilidade das bases de dados e das rotinas institucionais levou os governos a dependerem mais de informações do setor produtivo e de comitês focados principalmente nos impactos econômicos da crise, o que, por sua vez, diminuiu a ênfase na lógica sanitária nas decisões.
Bolhas Políticas e Consequências a Longo Prazo
Um conceito central apresentado na pesquisa é o das “bolhas políticas” no campo da saúde pública. Diferente das bolhas financeiras, essas bolhas se formam quando os governos alocam recursos de maneira intensa e contínua em determinadas áreas ao longo do tempo, especialmente em momentos de crise. Quando essas bolhas são bem sucedidas, elas criam legados institucionais duradouros que persistem após a emergência.
No entanto, onde essas bolhas não se consolidaram, como em estados com menor capacidade institucional, os efeitos da crise têm o potencial de intensificar desigualdades preexistentes. A pandemia de Covid-19 destacou como as decisões tomadas em crises anteriores moldam as opções disponíveis no presente e influenciam quais atores têm voz nos processos decisórios.
Um Alerta para o Futuro
Embora o estudo não ofereça soluções imediatas, ele levanta um alerta significativo para o Acre e outros estados que possuem uma base institucional frágil. A falta de investimentos contínuos em saúde pública, vigilância epidemiológica e produção de dados sugere que as respostas a futuras emergências — sejam novas ondas de dengue, epidemias regionais ou uma nova pandemia — poderão repetir os mesmos padrões de vulnerabilidade observados durante a Covid-19.
