Perspectivas do Agronegócio Brasileiro
Com uma trajetória sólida no agronegócio, Octaciano Neto compartilha sua experiência e analisa a situação atual do setor. Natural do distrito de Cristal do Norte, no município de Pedro Canário, Espírito Santo, Neto cresceu na Fazenda Guanabara, herdada de seu avô, Octaciano Gomes, que lá chegou em 1958. Desde pequeno, ele ouviu sobre crises e dificuldades no campo, uma narrativa que se tornou quase cultural entre os produtores rurais.
No passado, até o final de 1984, o financiamento do agronegócio era predominantemente público, mas com o advento de novas políticas e a transição para o crédito privado, o cenário começou a mudar. Atualmente, mais de 95% do financiamento no setor provém de recursos privados, mas o discurso de crise persiste na linguagem dos produtores.
“Vivenciei diversas quebras de negócios, como a usina de álcool Cridasa, que era um pilar econômico para meu distrito”, lembrou Neto. Ao mesmo tempo, ele testemunhou transformações significativas, com pessoas que conseguiram prosperar no agronegócio, como amigos que saíram do sertão da Bahia e hoje são exemplos de sucesso.
O norte do Espírito Santo, segundo Neto, abriga algumas das terras mais valorizadas do Brasil, com preços que chegam a R$ 150 mil por hectare, especialmente no cultivo de café. “É surpreendente pensar que, há menos de uma década, essa realidade parecia impossível”, destacou. Desde a década de 90, o agronegócio brasileiro tem quebrado recordes de produção e produtividade, refletindo em números impressionantes no superávit da balança comercial, que subiu de cerca de US$ 15 bilhões nos anos 2000 para aproximadamente US$ 150 bilhões atualmente.
Desmistificando a Crise
O que realmente revela a situação do agro no Brasil é o crescimento das exportações. Em 2025, o setor registrou a marca histórica de US$ 169 bilhões em exportações, respondendo por quase metade das vendas externas do país. Mas, a pergunta que permanece é: onde está a crise?
O aumento da produção de grãos, que cresceu mais de 500% desde a safra 1985/86, ilustra bem a eficiência do setor, que conseguiu dobrar a área plantada ao mesmo tempo em que economizou milhões de hectares. O Brasil, com sua vasta extensão territorial, destina apenas 31% de suas terras à agropecuária, o que indica que há espaço para crescimento.
José Roberto Mendonça de Barros, renomado analista econômico, afirma que o agronegócio foi o setor que mais se expandiu nos últimos 20 anos, mesmo em meio a crises globais e locais. Portanto, quando se fala em crise, é crucial contextualizar tal afirmação. O que se observa, segundo Neto, é um ciclo de crescimento que requer investimentos consideráveis, o que pode levar à alavancagem excessiva por parte de alguns produtores.
O Papel das Recuperações Judiciais
Um dos principais fatores que alimentam a narrativa de crise são as recuperações judiciais. Com a introdução da nova Lei de Falência e Recuperação Judicial em 2020, o acesso a esse mecanismo se ampliou para o setor rural. Cifras como 1.582 recuperações até o terceiro trimestre de 2025 podem soar alarmantes, mas, quando comparadas ao total de aproximadamente 1 milhão de produtores, esse número representa menos de 0,3% do total.
Entretanto, isso não significa que os problemas não existam. A inadimplência bancária, embora tenha registrado crescimento, continua a ser uma preocupação controlável. Os dados mostram que a inadimplência no setor agro é comparável a outros segmentos, como pessoa física e jurídica, indicando que o problema é mais complexo e estrutural do que uma simples crise no agronegócio.
Gilson Bittencourt, vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil, também compartilha uma visão otimista: “Embora os agricultores enfrentem um ano desafiador, a expectativa é que os resultados melhorem”.
Soluções e Futuro do Setor
A situação atual do agronegócio, segundo Neto, exige uma gestão financeira rigorosa e uma abordagem mais técnica. O futuro demanda adaptação, com bancos se tornando mais criteriosos e produtores se aprimorando em conhecimento financeiro e estratégias de gestão.
Os desafios enfrentados por alguns produtores não são representativos do setor como um todo. A maioria dos agricultores, que são responsáveis pela maior parte da produção, permanece em uma posição sólida. Como Neto pontua, “os problemas enfrentados por uma minoria não definem a saúde do conjunto”. O ciclo de amadurecimento não é uma crise, mas uma clara transição.
Nesse contexto, a questão dos juros altos se torna central. A diminuição da dependência do Plano Safra e a alta nos custos financeiros afetam a rentabilidade. Com a expectativa de que a inadimplência comece a cair, surgirão novos desafios que poderão alimentar a narrativa da crise, mas a trajetória do agronegócio continua a indicar um futuro promissor.
Em suma, o agronegócio brasileiro, longe de estar em crise, está em uma fase de transformação. O futuro é promissor, e o setor continua a ser um pilar essencial da economia nacional.
