Desafios Antecipados para o Agronegócio
A transição provocada pela reforma tributária já está causando repercussões no agronegócio antes mesmo da implementação de alterações significativas na carga tributária. De acordo com especialistas, o maior desafio que os produtores rurais enfrentarão em 2026 será a adaptação operacional, especialmente em relação à qualidade da informação fornecida nas operações. O advogado e doutor em Agronegócio, André Aidar, destaca que, embora a nova legislação se concentre na alíquota, a exigência de uma adaptação operacional eficaz já se faz presente, refletindo na correta emissão de Notas Fiscais eletrônicas (NF-e), no enquadramento dos produtores como contribuintes e na integração com sistemas de gestão.
Aidar alerta para os riscos que a falta de ajustes nos controles e na documentação pode trazer. A ausência de conformidade pode resultar na recusa de créditos tributários e, consequentemente, em elevação dos custos indiretos. Ele enfatiza que o verdadeiro risco não reside em ações isoladas, mas sim na cadeia de produção como um todo, particularmente na compra de insumos e na venda da produção. Um erro na qualificação fiscal pode impactar toda a operação seguinte, tornando essencial a atenção a detalhes que parecem simples, mas que têm efeitos em cascata.
Medidas para Mitigar Riscos
Para minimizar riscos e custos em 2026, Aidar sugere três medidas práticas e de baixo custo: revisar cadastros fiscais e o padrão de emissão das NF-es; mapear contratos recorrentes, como insumos e arrendamentos, e integrar as áreas contábil e jurídica desde já. Segundo ele, a reforma tributária deve ser tratada não apenas como um tema fiscal, mas como uma questão que permeia também a gestão contratual e operacional. “A governança na operação rural é o foco da reforma; quem se antecipa nesse aspecto pode reduzir riscos e preservar suas margens”, sublinha.
Impacto do Frete no Agronegócio
Em um contexto mais amplo, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) anunciou que começará a multar eletronicamente empresas que não cumprirem os valores mínimos da Tabela de Fretes Rodoviários, estabelecida para garantir remuneração justa aos transportadores. Apesar da intenção, muitas empresas ainda não estão obedecendo a essa tabela, o que leva a um cenário em que os preços de frete seguem a antiga lógica de oferta e demanda.
Os custos de frete têm um impacto direto na rentabilidade dos produtores, especialmente em estados como Mato Grosso, que lidera a produção nacional de grãos. Com uma produção recorde de soja e milho, o estado enfrenta um dilema: embora produza em grande quantidade, o consumo local é baixo, forçando os produtores a exportarem uma parte significativa de sua colheita. No acumulado de 2025, Mato Grosso exportou 31 milhões de toneladas de soja e 28 milhões de toneladas de milho, o que representa 30% e 50% das exportações nacionais de cada produto, respectivamente.
Condições Logísticas e Rentabilidade
A localização geográfica do estado, a 2.300 km do porto de Paranaguá e a 2.000 km de Santos, acentua a dependência em relação à exportação e torna qualquer alteração na estrutura de custos logísticos um fator crítico que impacta diretamente a receita bruta dos produtores. Em Sorriso, por exemplo, uma saca de soja é vendida por cerca de R$ 104,00, enquanto em Paranaguá, o valor pode chegar a R$ 142,00, criando uma disparidade de 37% que é em grande parte atribuída aos custos de frete.
O aumento no custo do frete não apenas encarece os insumos, mas também diminui o retorno financeiro sobre as vendas. Portanto, é crucial que os produtores encontrem maneiras de mitigar esses custos. Aumentar a produtividade e agregar valor aos produtos são estratégias viáveis. O exemplo do etanol de milho ilustra essa abordagem, onde a demanda local elevou o valor pago aos produtores de modo que agora se aproxima dos preços praticados no Sul do país.
Investimentos Necessários para o Futuro
Investir em infraestrutura logística, como ferrovias e hidrovias, é essencial para aumentar a concorrência entre modais de transporte e, assim, reduzir os custos logísticos. No entanto, as questões relacionadas à expansão da infraestrutura no Brasil são frequentemente prejudicadas por entraves judiciais, o que dificulta a implementação de soluções eficazes a curto prazo. Enquanto isso, aumentar a produtividade continua sendo uma das poucas opções acessíveis para os produtores. Dados do Desafio Nacional de Máxima Produtividade do CESB mostram que, mesmo com investimentos, uma maior produtividade pode levar a um retorno significativo por Real investido na lavoura, tornando esse investimento não apenas seguro, mas fundamental para a sustentabilidade do agronegócio brasileiro. Portanto, a busca por um equilíbrio entre eficiência operacional e adaptação às novas exigências tributárias será vital para o futuro do setor.
