Reflexões sobre a Política e o Respeito no Brasil
Em tempos passados, a figura de um homem notável permeou minha vida. Ele não apenas se destacou como político, mas também como um jurista de grande habilidade. Nascido em Minas Gerais e radicado no Rio de Janeiro, conseguiu ser eleito deputado federal por seu estado natal. Durante essa fase, tornou-se um aliado próximo de minha mãe, facilitando minha inclusão em um educandário que, à época, era considerado o melhor da América Latina. E de fato, era.
A partir desse momento, seu principal legado foi tê-lo ao meu lado por toda a vida. Formamos um pequeno grupo ao redor de Bilac Pinto, então ministro do Supremo Tribunal Federal, que reunia diversas personalidades políticas, como Aureliano Chaves e Francisco Rezek. A diversidade de opiniões e experiências enriquecia nossas conversas. Curiosamente, sou o único que não teve tanto sucesso na vida jurídica.
Após meio século de atividade, ainda ouço críticas vindo de figuras como um presidente da república e uma senhora que alegam que minha trajetória está cheia de irregularidades. Ela, que é a única advogada mencionada na Constituição Federal. Lembro também de outro mineiro que, com sua forma peculiar de nos tratar, sempre se fez presente em minha vida. O senador Tancredo Neves, por exemplo, tinha o hábito de me convidar para um café da manhã às seis da manhã, e se eu chegasse atrasado, sua decepção era evidente. Afinal, dizem que mineiro não perde o trem.
Um aspecto paradoxal que destaco é que, apesar das divergências políticas acirradas, todos eram muito próximos de meu pai. Eles se sentiam responsáveis por minha formação na Amazônia, em um jogo de tratos e recados que, se não entendidos, poderiam ser explicados pelos avós. Hoje, a situação é bem diferente. A falta de respeito é palpável. Antigamente, aliados e opositores se tratavam com deferência, usando títulos como ‘excelências’ e ‘senhores’.
Após o fim do período militar, o ex-presidente José Sarney fez uma observação sobre a nova Constituição de 1988, dizendo que havíamos criado uma nação ingovernável. Isso se deve à tumultuada ânsia política que se seguiu, marcada por um retorno ao populismo, que ele mesmo previa. João Baptista Figueredo, ao deixar seu cargo, também expressou preocupações quanto à ascensão de um partido que poderia gerar uma ‘esbórnia total’.
Em relação ao Partido dos Trabalhadores, sempre expressei minhas discordâncias, mas reconheço que, sob a liderança de Lula, houve uma desorganização que afetou a governança. Uma metáfora que usei para descrever o cenário à época foi a de um caminhão carregado de porcos, onde cada um tentava se sobressair, sem respeitar o espaço do outro. O que tudo isso gerou foi um ambiente de caos, em que a prudência e o respeito se tornaram palavras de ordem esquecidas.
Em relação ao Congresso, as idades de acesso foram reduzidas, especialmente no Senado, que antes era visto como um espaço de reflexão e respeito. Hoje, os jovens líderes parecem priorizar apenas seus interesses políticos e negociações obscuras.
Meu pai sempre me transmitiu sabedoria. Ele costumava dizer: ‘Nunca abrace causas das quais não tenha razão.’ Ele acreditava que numa nação, tudo tem conserto, desde as forças armadas até a polícia, que é a essência do Estado organizado. E em política, a única coisa que deve ser respeitada é o judiciário, que deve ser imparcial.
Se estivesse vivo, meu pai completaria 120 anos em 27 de março deste ano. Com certeza, sua voz ecoaria alertando sobre as consequências da falta de respeito na política. Um exemplo recente foi a indicação de um ministro que desfez condenações de instâncias superiores, mostrando um desprezo pela legalidade. A politicagem não para por aí; outras figuras públicas também se tornaram alvo de críticas e rejeições.
Atualmente, a imagem do judiciário, que deveria ser respeitada, é arruinada por atitudes impensadas. Inclusive, muitos têm aversão a transportá-los, mostrando a clara insatisfação da população. O clima é de apatia e desprezo. O que antes era uma honra, agora se tornou um fardo. É preciso que os políticos entendam que sua reputação e o respeito da população são fundamentais.
Para finalizar, deixo um conselho do meu pai: ‘Nunca deixe que seu inimigo saiba que você é inimigo dele, senão, amanhã, quando precisar, ele não entrará em seu carro.’ Essas palavras, mesmo após tantos anos, ainda têm grande relevância.
Portanto, o legado de respeito e sabedoria que meu pai deixou não deve ser esquecido. A política é um campo que exige cuidado e responsabilidade, e a história deve ser ouvida para que possamos construir um futuro melhor.
