Um Projeto de Preservação Cultural
Pesquisadores do Centro de Memórias da Universidade Federal do Amapá (Unifap) estão realizando um trabalho fascinante ao catalogar processos judiciais com mais de 100 anos de existência. Intitulado “Memórias Reveladas: a salvaguarda da história jurídica e cultural do estado do Amapá”, esse projeto é realizado em parceria com o Tribunal de Justiça do Amapá (TJAP). O objetivo é preservar e disponibilizar documentos que retratam a vida social e política da região desde o século XIX, ajudando a entender eventos que moldaram a sociedade amapaense.
O TJAP forneceu um acervo significativo; cerca de 1.300 caixas contendo entre 5 e 10 processos judiciais cada, com páginas que variam entre 50 e 300. Em casos onde os documentos estão gravemente danificados, a orientação é devolver ao tribunal. O trabalho dos pesquisadores inclui limpeza, organização e descrição detalhada desses processos. Para garantir a preservação, as caixas são constantemente trocadas, e, dada a natureza do material, os pesquisadores utilizam equipamentos de proteção.
Segundo Elke Rocha, coordenadora do Centro de Memórias da Unifap, essa tarefa é rigorosa e realizada em etapas. “Nosso intuito é disponibilizar esse acervo tanto em formato físico quanto digital, ampliando o acesso para pesquisadores e estudantes”, destaca. Os documentos, que datam de tempos anteriores à era digital, são vitais para a compreensão da história local.
A Importância da Atualização Terminológica
Além de resgatar a memória histórica, os pesquisadores estão atentos à linguagem utilizada nos documentos. Vitória Melo, bolsista do projeto, comenta que alguns casos que antes eram classificados como homicídio estão sendo reavaliados, agora reconhecidos como feminicídio. “Atualizamos os termos jurídicos. Nos arquivos antigos não havia essa nomenclatura, mas temos autorização para usar o termo feminicídio”, explica, destacando a evolução da linguagem jurídica e a necessidade de adaptá-la aos tempos modernos.
Entre os casos mais emblemáticos que estão sendo revisados, destaca-se o homicídio de uma diretora de escola em Santana, morta dentro da biblioteca da instituição. A riqueza de detalhes contida no processo tem levado os pesquisadores a revisitarem o passado, tornando-o ainda mais relevante na análise contemporânea.
Depois que a curadoria do material for finalizada, todos os documentos serão entregues ao TJAP, que cuidará do arquivamento no Centro de Memória, garantindo que essa parte da história do Amapá esteja acessível para futuras gerações. A preservação não é apenas uma questão de manter documentos; é uma forma de manter viva a memória cultural e histórica de um povo.
O projeto “Memórias Reveladas” reforça a importância de iniciativas que busquem valorizar a história local e disponibilizar informações que podem ser cruciais para estudantes, pesquisadores e a sociedade em geral. O acesso a esses registros não apenas traz à tona a história do Amapá, mas também contribui para um diálogo mais amplo sobre o passado e suas implicações no presente.
