O Impacto do Pertencimento na Juventude Brasileira
No Brasil, a compreensão sobre a perda de jovens ainda carece de uma visão coletiva. Esses jovens não se distanciam por vontade própria; eles são frequentemente empurrados por estruturas sociais fragilizadas, políticas ineficazes e vínculos desgastados. Ao longo de minha trajetória como fundador e psicólogo do Reflexões da Liberdade, observei milhares de histórias que confirmam essa realidade: a falta de pertencimento é uma ausência devastadora. Por outro lado, onde há uma presença constante, tudo começa a mudar.
Um episódio emblemático ficou marcado em minha memória: um adolescente de apenas 14 anos me questionou: “Tio, se a vida fosse diferente, eu também seria?” Essa indagação encapsula a desigualdade emocional presente em nossa sociedade. Não se trata de um ato de rebeldia, mas sim de uma manifestação da solidão estrutural que perpassa comunidades vulneráveis, famílias sobrecarregadas e instituições educacionais à beira do colapso. Em vez de ver esses comportamentos como problemas, é crucial enxergá-los como reações de sobrevivência.
Fatos que Comprovam a Crise de Pertencimento
Estatísticas corroboram essa situação alarmante: a insegurança alimentar, a falta de atividades formativas adequadas e a ausência de serviços essenciais se combinam com a realidade de jovens que transitam sem a orientação de adultos dispostos a apoiá-los. A neurociência e a psicologia do desenvolvimento demonstram que nenhuma fase da adolescência se desenvolve de forma saudável sem vínculos estáveis.
Apesar desse conhecimento, continuamos a aplicar punições em vez de oferecer a devida assistência. No Reflexões da Liberdade, propomos uma abordagem diferente: priorizamos a escuta atenta, a reconstrução emocional e o acompanhamento contínuo. Nossa articulação com escolas, serviços de saúde, assistência social e justiça é contínua e proativa.
Não prometemos soluções milagrosas, mas entregamos um método sólido, técnicas eficazes e a tão necessária presença. Graças a esse trabalho, mais de 12 mil jovens e 25 mil famílias conseguiram traçar novos rumos e reescrever suas histórias.
O Caminho para a Transformação Social
Transformação não é simplesmente um discurso motivacional; é um processo que requer equipes capacitadas, políticas integradas, investimentos reais e a coragem moral para enfrentar desigualdades que persistem por décadas. É fundamental reconhecer a importância de cuidar dos profissionais que estão na linha de frente, pois só assim eles poderão continuar a cuidar dos jovens.
Caberá a nós, como sociedade, reconhecer que o pertencimento é a política pública mais negligenciada do Brasil. Escrevo com a firme convicção de que ninguém deveria suportar as consequências do abandono. Observamos diariamente o renascimento da esperança nos olhos de cada jovem que encontra um espaço para existir.
A Importância da Ação Coletiva
Se a vida tivesse sido diferente, muitos desses jovens teriam caminhos distintos. E nós, como sociedade, também seríamos melhores. Ninguém se perde sozinho e, por isso, ninguém se reencontra sem vínculos. A mudança depende de abandonarmos uma lógica reativa e adotarmos uma agenda preventiva que se baseie na criação de laços, no cuidado e na continuidade.
Quando o Estado apenas se manifesta após o dano, ele chega tarde demais. Por outro lado, a atuação isolada da sociedade civil se mostra insuficiente e a escola, ao tentar resolver todos os problemas, acaba por se esgotar. Contudo, se cada área assumir sua responsabilidade e agir de forma colaborativa, os jovens deixarão de ser meros alvos e se tornarão protagonistas de suas histórias.
Além disso, deve-se destacar que transformar a vida de jovens não é apenas uma questão técnica, mas também ética. Isso requer um compromisso diário com a escuta, a coerência e a responsabilidade. Cada jovem, tratado como uma estatística, é, na verdade, uma narrativa interrompida que pode ser retomada.
Construindo Políticas Públicas Justas
Reconhecer que o desenvolvimento humano é um direito e não um privilégio nos permite criar políticas públicas que não sejam respostas tardias, mas sim construções contínuas de dignidade. É nesse esforço conjunto que conseguimos estabelecer as condições para que cada jovem desenvolva autonomia e esperança. Quando o cuidado é a prioridade, a vida tem a chance de florescer.
