A Relação Preocupante com a Saúde
Os patinetes elétricos tornaram-se uma presença comum nas ruas de diversas cidades brasileiras, promovidos como uma solução eficiente para a micromobilidade. Esses veículos são frequentemente associados à ideia de descongestionar o trânsito urbano, reduzir o tempo de deslocamento e contribuir para a diminuição das emissões de carbono. Contudo, por trás de seu apelo moderno, esconde-se uma preocupação crescente: a ameaça que representam à saúde e à segurança dos jovens.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca a falta de atividade física como uma das pandemias silenciosas da atualidade. Para combatê-la, a mobilidade ativa — que envolve caminhar ou andar de bicicleta — é considerada a ferramenta mais eficaz. Esse tipo de transporte não apenas promove a saúde, mas também integra exercícios ao cotidiano, especialmente em trajetos frequentes, como ir à escola.
Estudos recentes têm levantado questionamentos sobre como os veículos de mobilidade assistida, como os patinetes elétricos, podem estar reduzindo as oportunidades de atividade física para os jovens. Um deles revela que o uso de patinetes resulta em um gasto energético inferior ao de simplesmente caminhar. Afinal, esses veículos não proporcionam um meio de transporte ativo, mas sim passivo. Dessa forma, ao substituir caminhar ou pedalar pelo uso do patinete, os jovens podem estar perdendo uma parte significativa de sua atividade física diária, como observam diversas pesquisas. Além disso, a possibilidade de se deslocar até a porta do destino torna menos atrativa a combinação de patinete com transporte público.
Por exemplo, se um jovem troca um percurso de 15 minutos a pé por um de 5 minutos em patinete elétrico, ele acaba por comprometer não só sua atividade física diária, mas também a interação com o ambiente ao seu redor. O impacto potencial na saúde pública é alarmante, especialmente se considerarmos a magnificação desse efeito para milhões de jovens. A longo prazo, a dependência de patinetes pode contribuir para um aumento nos índices de doenças não transmissíveis.
Os potenciais efeitos negativos dos patinetes elétricos não se restringem apenas à saúde física; há também preocupações relacionadas à saúde psicossocial. Esses veículos podem transformar a experiência social do deslocamento, reduzindo as interações que frequentemente ocorrem durante caminhadas ou pedaladas, diminuindo, assim, o intercâmbio de experiências entre os jovens.
Aumento de Acidentes e Lesões
Além das inquietações quanto à saúde, o crescimento da micromobilidade trouxe consigo um aumento alarmante no número de acidentes. Dados da Direção Geral de Trânsito da Espanha indicam que, em 2024, 459 pessoas foram hospitalizadas devido a acidentes envolvendo veículos de mobilidade pessoal, em sua maioria patinetes elétricos. Isso representa um crescimento de 34% em comparação ao ano anterior, com o número de vítimas fatais quase dobrando, passando de 10 para 19.
Outras cidades europeias também corroboram essa tendência. Na Alemanha, por exemplo, o aumento de mortos foi registrado em 27%. É interessante notar que metade dos feridos tinha menos de 25 anos. Além disso, estudos demonstram que, entre os jovens, os patinetes elétricos estão associados a um número maior de acidentes em comparação às bicicletas. As lesões incluem desde fraturas complexas até traumas cranianos e lesões na medula espinhal. A velocidade que esses veículos podem atingir, somada à instabilidade de suas pequenas rodas e à falta de infraestrutura adequada, transforma o uso de patinetes em uma atividade arriscada.
Fatores adicionais, como a falsa sensação de segurança proporcionada por esses veículos, a baixa taxa de uso de capacetes, a carência de educação viária e a inexperiência dos jovens ao operar veículos em alta velocidade em áreas urbanas congestionadas, intensificam o perigo associado ao uso de patinetes.
A Bicicleta como Alternativa Viável
Em vez de proibir o uso de patinetes, a solução passa por promover alternativas que sejam saudáveis e sustentáveis. A bicicleta, mesmo não sendo elétrica, representa uma solução eficaz para a mobilidade em trajetos urbanos de curta e média distância.
Esse meio de transporte oferece vantagens que os patinetes elétricos não conseguem igualar, sendo o que se chama de “modelo das três S”: Saúde, Sustentabilidade e Segurança. As bicicletas proporcionam um gasto energético significativo, contribuindo para a atividade física diária e promovendo também aspectos psicossociais positivos. Além disso, são um meio de transporte de zero emissões, alinhando-se assim com as metas de sustentabilidade ambiental, e, embora envolvam riscos, o design das bicicletas e a infraestrutura ciclística existente melhoram tanto a percepção quanto a segurança real dos ciclistas.
A Rede Espanhola para uma Infância Ativa e Saudável defende que o futuro da mobilidade juvenil deve ser ativo, não assistido. É imperativo que as políticas urbanas, educadores e famílias priorizem a criação de ambientes que incentivem jovens a caminhar e pedalar.
Diretrizes para melhorar a saúde pública e proteger o planeta incluem a criação de ciclovias seguras, ações para promover a pacificação do tráfego e o compartilhamento seguro das vias com veículos motorizados, além de programas de educação viária que abordem os benefícios físicos e mentais do ciclismo.
Embora os patinetes elétricos sejam uma opção de mobilidade, não são uma solução para a saúde. É fundamental que a próxima geração não substitua a atividade física pela conveniência. O caminho para uma juventude mais saudável e um planeta mais sustentável passa por incentivar os jovens a retomarem o movimento com suas próprias pernas.
