Flagrante da PF Revela Suspeitas sobre Alcolumbre
A Polícia Federal (PF) fez um flagrante que exacerba a crise política entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e o governo Lula. O empresário Breno Chaves Pinto, segundo suplente de Alcolumbre, foi visto deixando uma agência bancária com R$ 350 mil em espécie. O carro utilizado por ele pertence a uma empresa controlada por primos do senador.
Essa informação foi extraída de um relatório de monitoramento que investiga possíveis fraudes em licitações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no Amapá, conforme relatado pelo O Globo. O incidente ocorre em um cenário já marcado por desconfiança e deterioração nas relações entre Alcolumbre e o Palácio do Planalto.
Pressão e Reveses no Cenário Político
No contexto de pressão causada pelas repercussões do escândalo do Banco Master, Alcolumbre e a cúpula do União Brasil têm atribuído ao governo a responsabilidade pelos reveses enfrentados nas investigações que envolvem figuras proeminentes do partido. A situação é ainda mais complicada pela falta de consenso sobre a indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), indicação esta que depende do aval do Senado.
Os desdobramentos da operação da PF no Amapá iniciaram-se após um alerta do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre saques significativos em espécie. As investigações indicam que esses saques se sucediam pouco tempo após a entrada de recursos oriundos de contratos públicos, levantando suspeitas de lavagem de dinheiro.
Inquérito Revela Conexões Criminosas
A PF está investigando Breno Chaves Pinto como um dos líderes de uma organização criminosa que estaria manipulando licitações do Dnit no Amapá. De acordo com os documentos, Chaves exercia uma “forte ingerência institucional” na autarquia, utilizando-se de sua posição como suplente para, supostamente, praticar tráfico de influência. Relatórios financeiros indicam saques que ultrapassam R$ 3 milhões, próximos a datas de pagamentos de contratos públicos.
Em resposta, Chaves Pinto alegou que os saques eram destinados a pagamentos a funcionários e prestadores de serviços da empresa. Ele também comentou que o processo está sob segredo de Justiça, limitando as declarações de sua defesa a documentos oficiais. Alcolumbre, por sua vez, negou qualquer envolvimento com as atividades de seu suplente.
Investigações Revelam Movimentações Suspeitas
As investigações da PF mostraram que os saques eram realizados em diferentes agências do Amapá. Em uma operação no dia 7 de novembro de 2024, os agentes monitoraram Chaves Pinto enquanto ele retirava R$ 350 mil de uma agência em Santana, a aproximadamente 20 quilômetros da capital, Macapá. O empresário chegou ao local em um carro de propriedade da Lojas 2A Ltda., que tem como sócios os primos de Davi Alcolumbre, Alberto e André Brasil Alcolumbre.
Apesar de a venda do veículo para Chaves ter sido oficializada em julho de 2025, André Alcolumbre argumentou que a transação já havia ocorrido em 2022, mas a documentação não foi atualizada devido a um “erro material”.
Atuação de Organização Criminosa em Licitações
Segundo a decisão que autorizou a operação, a investigação aponta a existência de uma organização criminosa que atua na manipulação de licitações do Dnit. Conversas interceptadas revelaram um diálogo em que o superintendente do Dnit local agradece a Chaves Pinto por aumentos de recursos, insinuando que tais montantes eram resultado das “tratativas do nosso senador” — referindo-se a Alcolumbre.
Além disso, está registrado um pedido do superintendente para que Chaves Pinto solicitasse a Alcolumbre que pressionasse o governo a liberar pagamentos, indicando o uso de influência política para alocar verbas ao Dnit. As investigações começaram a partir de denúncias que sugeriam favorecimento a certas empresas em quatro licitações promovidas pelo departamento, e auditorias indicaram lentidão nas obras e possíveis desvios de recursos.
Expectativas e Desafios na Relação com o Senado
Os contratos sob investigação totalizam R$ 60,2 milhões e envolvem obras de manutenção na BR-156. A suspeita é de que o grupo simulava concorrências para direcionar contratos às empresas ligadas às investigações. Breno Chaves Pinto já havia sido alvo de uma operação anterior, em que foram apreendidos R$ 800 mil em dinheiro vivo em sua empresa, também vinculada a fraudes.
Embora um encontro entre Lula e Alcolumbre tenha sido cogitado para esta semana, a reunião não se concretizou, intensificando ainda mais a falta de alinhamento entre o governo e o Senado. Aliados de ambos os lados atribuem essa tensão à descontentamento de Alcolumbre com a articulação política do governo e a morosidade na formalização da vaga no STF.
Com Alcolumbre viajando para o Amapá, as esperanças de um diálogo na próxima semana diminuem. Para o governo, a reabertura de canais de comunicação entre o Palácio do Planalto e o Senado é fundamental, especialmente em um período em que a tramitação de pautas legislativas, como a PEC da Segurança, ainda está pendente.
