Análise da Representação Feminina no Amapá
São Paulo, SP (Folhapress) – O Amapá pode se consolidar como o estado que, proporcionalmente, mais elegerá mulheres nas eleições de 2026, se mantiver o desempenho observado nas últimas duas votações gerais. Em 2022, 27% das cadeiras foram ocupadas por mulheres, a maior taxa do Brasil, enquanto a média nacional foi de 18%. Em 2018, o Amapá também se destacou, alcançando 30% de representantes mulheres, em contraste com a média de 16% no restante do país.
Por outro lado, Mato Grosso apresentou uma realidade oposta nas últimas eleições gerais. Com apenas 10,8% de mulheres eleitas em 2022, o estado ficou empatado com Mato Grosso do Sul na última posição. Na eleição anterior, Mato Grosso ocupou o penúltimo lugar com apenas 8%, superando apenas Goiás, que registrou 6% de mulheres entre os eleitos.
Esses dados foram divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e não consideram as mudanças que podem ocorrer após as eleições, como as sobras eleitorais de 2025 que impactam a capacidade dos candidatos de assumir seus mandatos.
Representatividade Feminina nas Assembleias
A disparidade na representatividade feminina entre Amapá e Mato Grosso é particularmente evidente nas Assembleias Legislativas. Ambos os estados possuem 24 cadeiras, mas enquanto o Amapá conta com 7 deputadas, Mato Grosso tem apenas uma representante mulher.
Especialistas notam a ausência de estudos que expliquem essa diferença significativa. Em entrevista à Folha, eles levantam hipóteses que vão desde questões culturais e históricas até a ascensão tardia do Amapá como estado federativo.
Teresa Sacchet, professora de ciência política da UFRGS e pesquisadora associada da USP, destaca que a discrepância é notável considerando que todas as unidades da federação estão submetidas às mesmas diretrizes de gênero. Segundo ela, a falta de pesquisa aprofundada sobre o tema impede uma compreensão adequada das razões por trás desses números.
Para abordar essa lacuna, Sacchet coordena um estudo que deve apresentar seus primeiros resultados em agosto. A pesquisa investiga se a diferença se relaciona com as ações dos partidos nos dois estados, influenciando a alocação de recursos ou a inclusão de mulheres nas decisões partidárias.
Fatores que Contribuem para o Sucesso Amapaense
Débora Souto, mestranda em direito pela Unifap, sugere que o Amapá, em virtude de sua transformação em estado em 1988, pode ter se beneficiado. Após ser um território federal, a primeira eleição sob a supervisão do TRE ocorreu em 1994, em um momento em que a discussão sobre gênero já estava em voga, com a implementação de uma lei de cotas em 1995.
Outro aspecto interessante é o surgimento de dois perfis de políticas que têm facilitado a ascensão feminina no Amapá. O primeiro perfil é o de mulheres que herdaram capital político familiar, ligando-se à política devido à trajetória de homens de suas famílias. O segundo é o de representantes oriundas de movimentos sociais, como é o caso da deputada federal Marcivânia (PC do B).
Marcivânia explica que sua motivação para entrar na política institucional surgiu a partir de conversas com colegas de profissão, que acreditavam ser necessário ter representatividade no espaço político para fortalecer a categoria. Ela iniciou sua trajetória política em 2008, ao se candidatar como vereadora em Santana.
Atualmente, é uma das duas deputadas federais do Amapá, ao lado de Fátima Pelaes (Republicanos). Para Marcivânia, o Amapá está em uma posição avançada, mas ainda precisa intensificar esforços para assegurar mais oportunidades a mulheres negras e indígenas.
Desafios e Influências na Política do Amapá
Débora Souto também menciona a necessidade de considerar a possível estratégia de homens com tradição política local que buscam se manter influentes por meio de esposas e parentes. Curiosamente, todas as sete deputadas estaduais do Amapá estão ligadas a políticos com mandato, seja como esposas, irmãs ou filhas de prefeitos e ex-deputados estaduais.
Alliny Serrão (União Brasil), a primeira mulher a presidir a Assembleia Legislativa, é um exemplo claro disso. Sua carreira política foi impulsionada pela influência do marido, Márcio Serrão, ex-prefeito de Laranjal do Jari. Ela ingressou na política em 2012, apesar de enfrentar descrença quanto à sua capacidade de liderar.
A professora de ciência política, Fátima Guedes, complementa a análise ao afirmar que a cultura matriarcal do Amapá pode contribuir para essa notável participação feminina na política. Ela observa que, devido ao menor tamanho eleitoral, os cidadãos tendem a conhecer melhor suas lideranças, o que pode beneficiar as mulheres em suas campanhas.
Alzira Nogueira, mestre em sociologia pela UFC, acredita que a história local também desempenha um papel significativo. As figuras femininas proeminentes, como Raquel Capiberibe e Dalva Figueiredo, que tiveram papéis importantes na política do estado, ajudaram a pavimentar o caminho para as novas gerações de mulheres.
Comparação com Outros Estados e Conclusão
A professora Mariele Troiano, da UFF, ressalta que, historicamente, as regiões Norte e Nordeste têm demonstrado uma maior propensão a eleger mulheres em comparação ao Centro-Oeste. No entanto, a realidade em Mato Grosso apresenta desafios, como a predominância do agronegócio, que historicamente é dominado por homens. A cientista política Christiany Fonseca, do IFMT, aponta que a vasta extensão territorial de Mato Grosso e a dispersão do eleitorado dificultam a campanha, tornando-a mais dispendiosa para as mulheres.
