História e riqueza natural do Amapá
No final do século XIX e início do século XX, o Amapá, então parte do Estado do Pará e disputado entre Brasil e Guiana Francesa, atraiu centenas de pessoas atraídas pelas riquezas naturais da região. As áreas de Calçoene e Cassiporé destacavam-se pela abundância de pedras preciosas, joias e minérios. A intensidade da riqueza era tamanha que realidade e fantasia se misturavam em relatos da época, descrevendo montanhas reluzentes de ouro, fontes que jorravam o metal precioso e praias de rios formadas por areia dourada.
Alfredo, em seu livro “Verdadeiro Eldorado: O Amapá: Território Franco-Contestado”, lançado em 1932, detalhou essas imagens exuberantes: “Resplandeciam d’ouro as montanhas, as fontes jorravam o metal, as praias dos rios tinham em vez de areia, ouro em pó… muitos eram os que duvidavam que dos Céus não chovia água, mas sim, gotas douradas do tamanho de peras!”.
A Margem Equatorial e sua importância estratégica
Hoje, o Amapá se prepara para um novo capítulo de desenvolvimento com a exploração da Margem Equatorial, localizada a cerca de 150 km da costa amapaense e 500 km da Foz do Amazonas. Essa área, que se estende da Colômbia até a costa da África, concentra a maior reserva petrolífera do planeta, com destaque para o Amapá, onde estão os maiores poços.
Charles Chelala, vice-coordenador do Grupo de Pesquisa Estudos Socioeconômico e Sustentabilidade na Bacia da Foz do Amazonas (Petrofoz) e professor da Universidade Federal do Amapá (Unifap), destaca que o petróleo está a 7 mil metros de profundidade, e o Estado aguarda o laudo de viabilidade da Petrobras, previsto para ser divulgado na primeira semana de agosto com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para iniciar a exploração.
Impactos econômicos e sociais da exploração petrolífera
Embora a quantidade exata ainda seja incerta, as estimativas indicam que a reserva pode superar a de Dubai, com mais de 30 bilhões de barris em toda a margem e entre 5 a 6 bilhões apenas na costa do Amapá. Atualmente, o Brasil produz cerca de quatro milhões de barris diários, consumindo mais de três milhões e refinando apenas dois milhões. O petróleo da margem amapaense pode elevar essa produção para cinco ou seis milhões de barris por dia.
Segundo Chelala, um cenário de produção de cem mil barris diários, com petróleo a US$ 72 e dólar a R$ 5,70, geraria cerca de R$ 10 bilhões por ano em renda, o que corresponde a um terço do PIB do Amapá, atualmente em R$ 28 bilhões. Isso resultaria em arrecadação de aproximadamente R$ 2,3 bilhões em tributos, incluindo royalties, participação especial e ICMS, além da criação de cerca de 54 mil empregos diretos e indiretos, impactando significativamente os 108 mil empregos formais existentes para uma população de pouco mais de 800 mil habitantes. A projeção é que a matriz econômica do Amapá, que hoje depende 48% do governo e tem 65% dos salários pagos a servidores públicos, sofra uma transformação profunda.
Preparação para o boom petrolífero
A Petrobras estuda a Margem Equatorial desde 2022 e está na fase de avaliação pré-operacional, autorizada no ano passado. Essa etapa, que deve durar cinco anos, visa preparar a força de trabalho local, fornecedores e empresas para atender às exigências da exploração. Chelala explica que não é qualquer empresa que pode fornecer para a Petrobras; é necessário que tenham infraestrutura adequada e boas práticas.
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O vice-coordenador do Petrofoz ressalta que o trabalho offshore é bastante seguro, com histórico positivo nas bacias do Sudeste, onde mais de 60 sistemas operam sem acidentes graves. Apesar de relatos recentes de vazamentos de fluidos de sondas na costa do Amapá, a Petrobras garantiu que não houve vazamento de petróleo e que os fluidos não apresentam alta toxicidade, mas que o monitoramento será intensificado para evitar danos ambientais irreversíveis.
Desafios ambientais e socioeconômicos
Lucas Arantes, presidente do comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Araguari e ex-diretor de Meio Ambiente de Macapá, alerta para a necessidade de ampliar pesquisas e monitoramento ambiental, especialmente após o vazamento de fluidos de perfuração em 2026. Ele destaca que a região abriga comunidades tradicionais e áreas protegidas que precisam ser preservadas.
Arantes também chama atenção para o crescimento desordenado e a especulação imobiliária no município de Oiapoque, que enfrenta desafios estruturais, como saneamento precário, falta de energia interligada ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e baixa conectividade. O aumento da população estimado para os próximos anos pode agravar esses problemas, exigindo governança eficaz para evitar impactos negativos na qualidade de vida e na cultura local.
Potencial para desenvolvimento sustentável e bioeconomia
Além do petróleo, o Amapá tem grande potencial para desenvolver a bioeconomia, aproveitando seus vastos recursos naturais com responsabilidade ambiental. Cerca de 72% do território está protegido por unidades de conservação e terras indígenas, mantendo 92% da área intacta.
Empreendedores locais, como Michael Carvalho, fundador da Mazodan, já investem em tecnologias sustentáveis e startups voltadas para soluções inovadoras, como filtragem de água para comunidades ribeirinhas a partir do caroço de açaí. Essas iniciativas mostram que o Estado pode crescer economicamente sem abrir mão da preservação ambiental.
Expectativas e estratégias para o futuro
Waldeir Ribeiro, vice-presidente do Conselho Superior da Associação Comercial e Industrial do Amapá (Acia), defende a criação de um fundo soberano para garantir que os recursos do petróleo sejam aplicados em áreas essenciais como educação, saúde, saneamento e habitação, beneficiando toda a população e evitando a concentração de riqueza.
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O setor empresarial já se prepara para o impacto da exploração, com debates e capacitação para receber as oportunidades que virão. A experiência de Macaé (RJ) tem servido como referência para o Amapá, que espera uma geração de até 200 mil empregos diretos e indiretos com a cadeia produtiva do petróleo.
Desafios para evitar a “maldição do petróleo”
O Amapá já viveu promessas frustradas de prosperidade com o ouro e o manganês, e especialistas alertam para a necessidade de rigor na gestão dos recursos e dos impactos sociais. Waldeir Ribeiro lembra que não basta extrair riquezas se a população continuar sem acesso básico a serviços essenciais.
Thoni Furtado, presidente da Comissão de Meio Ambiente da OAB-AP, destaca o esforço para evitar que a criação de reservas ambientais inviabilize a exploração petrolífera, defendendo o equilíbrio entre preservação e desenvolvimento econômico. Ele reforça que o Amapá tem potencial para contribuir significativamente para a balança comercial do país, rompendo com seu histórico de peso negativo na geração de riqueza.
Conclusão: um novo horizonte para o Amapá
A chegada do petróleo à Margem Equatorial abre uma janela de oportunidades para o Amapá, mas também impõe desafios complexos de governança, sustentabilidade e inclusão social. A transformação da economia local promete elevar o Estado a um novo patamar, mas dependerá da capacidade de integrar desenvolvimento econômico, preservação ambiental e equidade social.
O sentimento da população, antes marcado pelo isolamento e pela desvalorização, começa a se transformar em orgulho e esperança. Como disse um morador local, “Quando alguém for te desmerecer de novo tu diz, ‘pelo menos no meu estado tem petróleo’”. Essa mudança simbólica reflete o potencial de um estado que caminha para ser reconhecido como um dos mais importantes do Brasil, impulsionado pela riqueza do seu solo e pelo compromisso com seu povo.
Eduardo Silva traduz impacto econômico para bolso, emprego, consumo e atividade regional, sem jargão financeiro desnecessário.
