Polêmica na Estação Primeira de Mangueira
A jornalista Berenice Seara, do Portal Tempo Real, trouxe à tona uma discussão acalorada sobre a possível influência política no desfile da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. A controvérsia gira em torno da participação expressiva de políticos aliados ao governo do Amapá na festividade, especialmente com a figura do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que está diretamente ligada ao enredo deste ano. O tema escolhido para o carnaval de 2026 é ‘Mestre Sacaca do Encanto Tucuju — O Guardião da Amazônia Negra’, refletindo a cultura e os saberes da região amazônica.
Com o apoio de Alcolumbre, a Mangueira garantiu um patrocínio de R$ 10 milhões proveniente do estado do Amapá. Este valor se torna o terceiro maior incentivo financeiro destinado a entidades sem fins lucrativos, de acordo com a gestão do governador Clécio Luís (SDD), que é aliado próximo de Alcolumbre. O enredo, assinado pelo carnavalesco Sidnei França, promete homenagear a sabedoria popular e a resistência cultural amazônica, explorando as histórias afro-indígenas e práticas ancestrais.
No entanto, a presença de Alcolumbre no desfile gerou apreensão entre os torcedores da Mangueira, que temem que a festa se transforme em um palanque político. A preocupação é que a imagem da escola de samba, tradicionalmente ligada à cultura e à comunidade, seja ofuscada por interesses políticos.
Credenciais e Polêmica na Avenida
Outra questão que está em pauta é a distribuição das credenciais de pista da Mangueira. Com as novas regras impostas pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), que foram implementadas no ano passado, as credenciais não estão mais disponíveis da mesma forma que antes. Agora, apenas as credenciais distribuídas pelas próprias escolas podem ser utilizadas durante o desfile, o que fez com que muitos mangueirenses levantassem suspeitas de que a delegação do Amapá teria privilégios nesse contexto.
A situação se agrava à medida que muitos torcedores expressam suas preocupações nas redes sociais, observando que a delegação ligada ao Amapá pode ter acesso facilitado às credenciais, o que, segundo eles, poderia comprometer a essência do desfile e a participação da comunidade local.
Controvérsias na Escolha do Samba-Enredo
A escolha do samba-enredo também não ficou livre de polêmicas. No dia 28 de setembro, a final que definiu a música tema da Mangueira tornou-se um momento tenso, com uma divisão clara entre os torcedores. Apesar da expectativa, o anúncio do vencedor deixou muitos em silêncio, e vídeos do evento rapidamente se tornaram virais, gerando reações diversas nas redes sociais. O clima de desapontamento foi tão intenso que alguns chegaram a se referir à situação como um ‘clima de velório’.
Embora alguns torcedores tenham defendido a escolha, outros rapidamente a classificaram como uma decisão equivocada, levantando a questão de se isso é apenas um reflexo de descontentamento ou se, de fato, houve manipulação na escolha, com a influência de opositores à atual gestão da escola.
Advertências do Passado
A interação entre política e carnaval na Mangueira não é um fenômeno novo. A escola de samba, que já enfrentou situações semelhantes no passado, parece estar revivendo uma história que, para muitos, serve como alerta. Um caso emblemático é o da Beija-Flor, que, em 2024, decidiu abraçar um enredo patrocinado pela prefeitura de Maceió, recebendo R$ 6 milhões, mas teve sua apresentação marcada pela presença do então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), que acabou gerando diversas críticas.
Essas experiências são lembradas com receio pelos integrantes da Mangueira, que temem que o desfile deste ano siga um caminho similar, priorizando interesses políticos em detrimento da cultura e da comunidade. A expectativa é que, com diálogo e participação ativa dos torcedores, a Estação Primeira de Mangueira possa, de fato, resgatar sua essência carnavalesca, livre de amarras políticas.
