Transformação Econômica e Ambiental no Amapá
A identificação de vastas reservas de manganês na Serra do Navio, em 1946, colocou o Amapá no cenário econômico global. A exploração da indústria mineral, liderada pela Indústria e Comércio de Minérios S.A. (ICOMI), trouxe riqueza e infraestrutura para a região, mas também deixou um legado complexo em termos de disputas ambientais.
A história do manganês no Amapá começa com a descoberta não por geólogos, mas pelo caboclo Mário Cruz. Ele utilizava as pedras pesadas como lastro para sua canoa e, ao apresentar as amostras ao geólogo Fritz Ackerman, obteve a confirmação do alto teor de pureza do minério, vital para a produção de aço. Essa descoberta atraiu o interesse imediato dos Estados Unidos, que buscavam fontes seguras de manganês no período pós-guerra. O minério do Amapá se tornou estratégico, visto que é um dos poucos recursos naturais insubstituíveis na siderurgia moderna.
A Era da ICOMI e a Parceria com Bethlehem Steel
Para a exploração do manganês, foi formada a ICOMI, uma parceria entre o empresário brasileiro Augusto Trajano de Azevedo Antunes e a americana Bethlehem Steel. O contrato de concessão, firmado em 1947, teve uma duração de 50 anos, moldando a infraestrutura do estado. A empresa não apenas explorou a mina, mas também construiu a Estrada de Ferro do Amapá, com 194 km, e o Porto de Santana, facilitando o escoamento da produção mineral.
O manganês desempenha um papel crucial no processo de produção do aço, principalmente na remoção de enxofre e oxigênio do ferro. Durante sua operação, milhões de toneladas de manganês foram exportadas para a América do Norte e Europa, e os royalties gerados pela mineração ajudaram a financiar grande parte do orçamento do território.
A Cidade Modelo e Seus Desafios
Ao lado da mina, a ICOMI construiu uma verdadeira “cidade da empresa” em Serra do Navio, com uma arquitetura moderna para acomodar seus funcionários. A vila era equipada com hospital de ponta, escolas, cinema, clubes e um sistema de saneamento completo, contrastando com a pobreza nas áreas circunvizinhas. No entanto, essa prosperidade era artificial e dependia diretamente dos lucros da exploração mineral.
Para conhecer melhor a história e a situação atual desse lugar, o canal Nois Pelo Mundo [Oficial] produziu um vídeo que mostra a Serra do Navio. O conteúdo explora o impacto do abandono da exploração de manganês e as curiosidades sobre a cidade planejada, que durante décadas foi um oásis de qualidade de vida na floresta amazônica.
O Ciclo do Manganês e Suas Consequências
Com o esgotamento das reservas economicamente viáveis no final dos anos 90, a ICOMI encerrou suas atividades, e a cidade foi devolvida ao poder público. Esse colapso econômico teve efeitos imediatos, transformando a vila modelo em um local com sérios problemas de manutenção e altos índices de desemprego. Além do vácuo econômico, restou um passivo ambiental preocupante, com pilhas de rejeitos contendo arsênio expostas, gerando riscos de contaminação dos lençóis freáticos e rios locais. Processos judiciais ainda estão em andamento, buscando a completa remediação da área afetada.
O Legado e os Desafios Atuais
Atualmente, Serra do Navio enfrenta um dilema entre a preservação de sua história e a urgência de descontaminação. Novas empresas tentaram retomar a exploração de jazidas menores, mas esbarraram em entraves legais e na desconfiança da população local. A experiência do manganês no Amapá evidenciou que a mineração pode gerar um desenvolvimento rápido, porém a sustentabilidade a longo prazo requer um planejamento eficaz para o futuro após o fim das reservas. A ferrovia, hoje desativada, permanece como um testemunho do ciclo da mineração na região, simbolizando tanto oportunidades quanto desafios.
