Longa-metragem provoca novas tensões na política cultural brasileira
Um ano após o sucesso global de “Ainda estou aqui”, o filme “O agente secreto” voltou a acirrar a disputa política entre o governo federal e o bolsonarismo. Isso se deu após suas indicações a importantes premiações internacionais, incluindo o Oscar, anunciadas na última quinta-feira. Um levantamento realizado pela consultoria Bites, a pedido do GLOBO, revelou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se destacou nas redes sociais com o post mais engajado, acumulando cerca de 1,2 milhão de curtidas, além de outras três publicações figurando entre as dez mais populares.
O filme foi indicado a quatro categorias do Oscar 2026: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura. Desde o início do ano, foram registradas 3,37 milhões de menções à obra nas redes sociais brasileiras, totalizando quase 70 milhões de interações.
O estudo sugere que, assim como em 2022, quando “Ainda estou aqui” conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional, a esquerda tem se mostrado mais eficiente em capitalizar o sucesso dos filmes. Além de Lula, postagens da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), da ex-parlamentar Manuela D’Ávila (PSOL) e do prefeito de Recife, João Campos (PSB) também figuram entre as mais engajadas.
Por outro lado, a postagem que mais repercutiu na direita foi do deputado Mario Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura durante o governo Bolsonaro, que defendeu os investimentos feitos por sua gestão.
André Eler, diretor-técnico da Bites, comentou a situação: “O bolsonarismo não conseguiu emplacar um discurso forte contra o filme. Se no ano passado, parte dos políticos de direita clamava por uma defesa do Brasil no Oscar, agora observamos críticas a Moura e reclamações sobre a abordagem do longa relacionada à ditadura. Esse discurso não ressoou com a população, que se mostrou mais receptiva à pauta positiva do cinema nacional nas premiações”.
A equipe do Planalto tem demonstrado um forte apoio à campanha do filme desde sua estreia nos festivais internacionais. Em agosto, Lula e a primeira-dama Rosângela da Silva, conhecida como Janja, receberam Wagner Moura e o diretor Kleber Mendonça Filho para uma sessão no Palácio da Alvorada. Neste ano, o presidente e Janja publicaram 19 vezes sobre o filme, somando 3,4 milhões de interações. Entre os presidenciáveis, Renan Santos (Missão) criticou Wagner Moura, mas sua postagem teve apenas 30 interações. O pastor bolsonarista Silas Malafaia também atacou o ator, mas a repercussão foi baixa, segundo o levantamento.
No filme “O agente secreto”, Wagner Moura interpreta Marcelo, um especialista em tecnologia que retorna ao Recife em busca de paz e reconexão com o filho. A trama se passa em 1977 e critica a ditadura militar. Os dias 11 e 12 de janeiro registraram o pico de menções nas redes sociais, após a vitória do longa na categoria internacional do Globo de Ouro, além de ter sido premiado como filme estrangeiro no “Critics Choice Awards” uma semana antes.
Durante a campanha do filme, a equipe fez críticas ao governo Bolsonaro. Kleber Mendonça Filho, ao receber o Globo de Ouro, destacou: “Nos últimos dez anos, o Brasil sofreu uma guinada acentuada à direita, mas esse período já passou. O ex-presidente está agora preso por tentativa de golpe de Estado. Ele foi extremamente irresponsável por não liderar o país”. Wagner Moura, de maneira irônica, agradeceu à gestão bolsonarista pela reflexão sobre a memória brasileira em relação à ditadura militar, afirmando: “O filme começou a partir da perplexidade compartilhada por mim e Kleber diante do que ocorreu no Brasil entre 2018 e 2022” durante sua entrevista ao programa “The Daily Show”.
O cientista político Fábio Vasconcellos observou que a polarização em torno da cultura tem se intensificado nas grandes democracias ocidentais. Professor da UERJ e da PUC-Rio, ele ressalta que a agenda cultural mobiliza a sociedade, acionando afetos e identidades. “O debate eleitoral está se deslocando de um modelo racional para um onde as emoções e posições extremas predominam, correlacionando-se com a ascensão de líderes como Donald Trump e Bolsonaro”, avaliou.
A cientista política Carolina Botelho, do INCT/SANI/CNPq, complementou que o bolsonarismo se articula contra a internacionalização do cinema nacional, apoiando-se em guerras culturais e teorias da conspiração. “O cinema brasileiro, pilar da cultura nacional, sofreu com a falta de recursos e a criminalização da classe artística durante o governo Bolsonaro”, concluiu.
