Uma Reflexão sobre a Autoclassificação Política dos Brasileiros
Com a chegada de 2026, o cenário político brasileiro começa a se delinear, trazendo à tona questões sobre a autoclassificação ideológica dos eleitores. A dicotomia entre esquerda e direita, que em muitos casos parece clara, revela-se, na verdade, mais complexa do que a percepção popular sugere. No contexto atual, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, em um vídeo onde sugere um boicote a uma marca de sandálias, exemplifica essa ambiguidade ao defender uma ideologia conservadora, enquanto ostenta um chinelo que contradiz sua mensagem. Tal situação ilustra a desonestidade ao se esperar coerência dos eleitores ao se definirem como de esquerda ou de direita.
Recentemente, uma pesquisa Datafolha suscitou debates ao revelar que, entre aqueles que se identificam como petistas, 34% se consideram à direita do espectro político, enquanto 14% dos que se identificam como bolsonaristas se posicionam à esquerda. Antes de tirar conclusões precipitadas, é fundamental entender que a maioria das pessoas em ambos os grupos não apresenta um posicionamento verdadeiramente contraditório.
A Metodologia das Pesquisas e suas Implicações
Para compreender melhor esses resultados, é necessário analisar a metodologia utilizada nas pesquisas. O Datafolha adota escalas de autoclassificação — os bolsonaristas fazem uso de uma escala de cinco pontos, enquanto a de esquerda e direita se estende a sete. Na prática, essa abordagem geralmente envolve o uso de cartões que apresentam as categorias extremas, ajudando os entrevistados a se posicionarem no espectro político.
Porém, ao observar a primeira pergunta, notamos uma dissonância: o instituto prefere usar “petista” (que corresponde às pontuações 4 e 5 da escala), ao invés de “lulista”, que seria mais apropriado em contraposição a “bolsonarista” (pontuações 1 e 2). O ponto 3, por sua vez, é classificado como neutro.
Na segunda questão, sobre o espectro político, a ordem se inverte, com a direita ocupando as posições de maior valor numérico. Assim, quem se posiciona nas posições 1 e 2 é considerado de esquerda, enquanto aqueles nas posições 6 e 7 são definidos como de direita. As respostas intermediárias, por sua vez, representam variações de centro.
Combinar variáveis nominais, como as identificações bolsonarista e petista, com escalas que sugerem respostas ordinais é uma atividade arriscada, pois pode gerar confusão, especialmente entre segmentos menos escolarizados e com menor acesso à informação.
A Evolução da Autoclassificação no Brasil
Um exemplo dessa confusão pode ser encontrado em pesquisas realizadas pelo Datafolha entre 1989 e 1993, em parceria com o Cebrap e a USP. Na época, uma pergunta aberta questionava o entendimento dos entrevistados sobre esquerda e direita, levando a respostas como “esquerda é tudo que é negativo, errado” e “direita é o certo, o melhor”. Essa falta de clareza sugere que a autoclassificação política no Brasil é, de fato, um reflexo de uma ‘intuição ideológica’ que pode ser moldada por fatores culturais e sociais.
O cientista político André Singer, em um estudo publicado pela revista do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp (Cesop), traçou a evolução da autoclassificação dos brasileiros desde 1989, revelando uma predominância histórica de direita e centro-direita, que teve seus números reduzidos no intervalo entre 2006 e 2014. A análise sugere que o lulismo pode ter desativado predisposições ideológicas, enquanto a eleição de Bolsonaro em 2018 reativou um conservadorismo, resultando em uma autodenominação de 47% da população como de direita.
Os Valores que Influenciam o Voto e a Autoclassificação
Quando a matriz conservadora se entrelaça com a ideologia do eleitor, os resultados começam a fazer sentido. Pesquisas recentes indicam que os brasileiros tendem a valorizar a família, a fé e o trabalho, com uma significativa resistência à legalização das drogas e apoio à redução da maioridade penal. Para muitos, a criminalidade é vista como consequência da maldade humana, e não da falta de oportunidades. Essa perspectiva pode levar um brasileiro a se identificar como de direita, mesmo se considerando petista, já que muitos defendem direitos trabalhistas e o papel dos sindicatos, em contrapartida ao liberalismo econômico.
A matriz de valores, especialmente entre a comunidade evangélica, teve um impacto significativo nas eleições de Bolsonaro em 2018. No entanto, em 2022, essa influência cedeu espaço para a insatisfação com a gestão pública, culminando na eleição de Lula, que se destacou por suas promessas na área social. O que se observa agora, com 2026 se aproximando, é um eleitorado que busca segurança em um mundo repleto de incertezas.
Em suma, a trajetória ideológica dos brasileiros é complexa e multifacetada, refletindo valores que transcendem as simples categorias de esquerda e direita. Essa nuance será crucial para os próximos ciclos eleitorais.
