Desafios à Independência dos Bancos Centrais
Estudos demonstram que a interferência em bancos centrais costuma resultar em inflação elevada e um crescimento econômico prejudicado. Esse cenário histórico é um dos motivos pelos quais a recente tentativa do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de demitir a diretora do Federal Reserve (Fed), Lisa Cook, ganhou notoriedade internacional.
Ainda que, em geral, os dirigentes do Fed não tenham sido demitidos por não atender às exigências presidenciais sobre taxas de juros, isso não impede que presidentes nos EUA tenham tentado — e em certos casos conseguido — influenciar as decisões da instituição monetária de outras maneiras. As ações de Trump, no caso específico de Cook, baseiam-se em alegações não comprovadas de irregularidades hipotecárias.
Historicamente, a pressão política sobre o Fed não é um fenômeno recente. Durante a presidência de Richard Nixon, por exemplo, o então líder pressionou Arthur Burns, presidente do Fed, a manter as taxas de juros baixas, mesmo diante de uma inflação crescente, em um esforço para garantir sua reeleição em 1972. Essa estratégia é amplamente considerada como o estopim de um surto inflacionário que só foi domado pelas ações severas de seu sucessor, Paul Volcker, que elevou as taxas a dois dígitos. Embora essa medida tenha conduzido a uma recessão, ela também restaurou a credibilidade da instituição como um banco central independente.
Outros presidentes também tentaram exercer influência sobre a política monetária do Fed. Em 1965, por exemplo, Lyndon Johnson convocou William McChesney Martin Jr., então presidente do Fed, para seu rancho no Texas, exigindo o fim do aumento das taxas de juros — um encontro que incluiu até mesmo empurrões físicos. Martin resistiu, preocupado que as políticas de estímulo fiscal de Johnson contribuíssem para a inflação. No entanto, anos depois, ele cedeu à pressão, afrouxando a política monetária após um acordo que prometia aumento de impostos, o que, posteriormente, elevaria a inflação.
Exemplos Internacionais de Pressão Política
O cenário não é único aos Estados Unidos. Na Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan, autoproclamado “inimigo dos juros”, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023, em resposta ao aumento das taxas de juros ou à resistência contra cortes que ele considerava necessários para reduzir a inflação. Contudo, essas ações resultaram em uma inflação crescente e na desvalorização da lira turca, dificultando a vida de muitas famílias em termos de custos básicos, como alimentação e moradia. Recentemente, Erdogan nomeou a economista americana Hafize Gaye Erkan, que rapidamente elevou a taxa básica de juros, buscando estabilizar a economia, que atingira uma inflação de 85% no final de 2022.
A Argentina também experimentou duras lições sobre a relação entre governança política e bancos centrais. A nacionalização da instituição pelo ex-presidente Juan Perón em 1946 resultou em um ciclo de crises financeiras e inflação galopante, especialmente após o governo passar a imprimir dinheiro para financiar seus gastos. Desde 2000, diversos presidentes do Banco Central argentino foram afastados por divergências com o governo, incluindo Martín Redrado, que foi demitido em 2010 após se recusar a executar planos que utilizariam reservas para quitar dívidas.
Na Venezuela, a situação é igualmente complexa. A Constituição do país assegura a independência do banco central, porém, o regime de Nicolás Maduro implementou reformas que resultaram em um controle total sobre a instituição, levando a uma hiperinflação sem precedentes, que chegou a superar 1.000.000% em 2018, em resposta ao financiamento direto de déficits governamentais por meio da emissão de moeda.
Por fim, o Zimbábue enfrentou uma situação crítica sob o governo de Robert Mugabe, que também recorreu à impressão de dinheiro para financiar gastos estatais, resultando em uma hiperinflação devastadora. Em 2009, o Banco Central do país chegou a emitir uma cédula de 100 trilhões de dólares, ilustrando a gravidade da crise econômica.
Essas histórias demonstram que a interferência política nos bancos centrais não é apenas uma questão de governança, mas uma questão que pode impactar drasticamente a economia de uma nação, elevando a inflação e desacelerando o crescimento econômico. Assim, a preocupação com a independência das instituições financeiras se torna uma questão crucial para a saúde econômica global.
