Análise dos Efeitos Indiretos
A tensão atual entre os Estados Unidos e a Venezuela pode impactar o agronegócio brasileiro de maneira indireta, especialmente em relação a energia, logística, custos e fluxos comerciais. Embora as consequências diretas sejam limitadas, os principais reflexos podem ser observados em diversas áreas, conforme a situação evolui. Dentre os efeitos mais significativos, destacam-se a volatilidade dos preços de commodities e insumos, além de uma possível pressão sobre os fretes marítimos e seguros.
Qualquer ruído geopolítico, mesmo que pontual, pode gerar flutuações nos preços do petróleo. Isso, por sua vez, tende a afetar o diesel, os fretes e os custos logísticos no Brasil. Para o setor de proteína animal, essa mudança pode ser crucial, pois transporte, refrigeração e distribuição se tornam gastos cada vez mais relevantes.
Pressões Logísticas e de Custo
A instabilidade geopolítica frequentemente resulta em um aumento dos prêmios de risco e dos custos de seguros de carga. Para exportadores de carnes e grãos, essa realidade pode significar custos adicionais e a necessidade de renegociar contratos, além de ajustes nos prazos de entrega. A possibilidade de novas sanções ou retaliações pode criar um cenário desafiador, exigindo uma vigilância contínua sobre a situação.
Outro ponto crítico é o risco de sanções e a conformidade na cadeia internacional. Empresas brasileiras com conexões a instituições financeiras, tradings e clientes internacionais podem enfrentar dificuldades devido a regras de compliance, que se tornaram mais rigorosas. Isso implica um aumento nas exigências de Know Your Customer (KYC), rastreabilidade e verificações de contrapartes, podendo ocasionar atrasos nos pagamentos e nas liquidações.
Oportunidades no Cenário Atual
No entanto, o cenário não é apenas de riscos. Dependendo das medidas adotadas, como restrições ou reaberturas parciais, o Brasil pode se beneficiar com um deslocamento de demanda por alimentos e proteína animal. Fornecedores considerados mais seguros e estáveis podem ver uma oportunidade de capturar essa demanda. Contudo, é importante lembrar que isso também vem acompanhado de maior escrutínio regulatório e contratual.
Conselhos de Especialistas
Adhemar Michelin Filho, advogado especializado e sócio da Michelin Sociedade de Advogados, esclarece que a gestão de riscos e a conformidade contratual são fundamentais nesse contexto. “Reforçar políticas de hedge e trabalhar com cenários flexíveis são ações recomendadas. É necessário estar preparado para ajustes de preço e compra, tendo em mente a volatilidade dos custos de insumos como câmbio e combustível”, afirma. Segundo ele, revisar cláusulas contratuais, como força maior e onerosidade excessiva, é essencial para mitigar riscos.
Ainda conforme Michelin Filho, é crucial ter mecanismos de renegociação claros e documentação adequada de eventos que possam impactar a operação, como aumentos de frete ou indisponibilidade de transporte. Sem dúvida, fortalecer as rotinas de due diligence em relação a clientes e fornecedores, além da checagem de listas restritivas, se torna imprescindível.
Pontos de Atenção no Setor de Proteína Animal
Michelin Filho também destaca a importância de monitorar os insumos que afetam a nutrição animal, como milho e farelo de soja, que têm seus preços influenciados pela volatilidade do câmbio e dos custos logísticos. A alta dos preços de energia tem um efeito domino, impactando o abate, o processamento e a distribuição dos produtos.
Em relação à exportação, ele alerta para a necessidade de estar atento aos requisitos adicionais de compliance e documentação exigidos por tradings e bancos. Em suma, a melhor estratégia de prevenção é encarar essa situação como um risco que permeia diversas áreas, desde a logística até a regulação, reforçando contratos e práticas de compliance para proteger as margens e garantir a continuidade das operações.
