Estudo Destaca Riscos Associados ao Uso Precoce de Smartphones
Um recente estudo publicado na revista Pediatrics aponta que crianças de 12 anos que possuem um smartphone apresentam mais sintomas depressivos, maior propensão à obesidade e menos horas de sono em comparação àquelas que não têm acesso a esses dispositivos. A pesquisa, que analisou dados de mais de 10 mil adolescentes ao longo de seis anos, revelou que, aos 12 anos, cerca de 64% dos jovens já possuíam um smartphone, percentual que aumentou para 89% aos 14 anos. A idade mediana em que o primeiro aparelho foi adquirido foi de 11 anos.
Os pesquisadores descobriram que cada ano que uma criança recebe um smartphone mais cedo está associado a um aumento na probabilidade de desenvolver problemas de saúde. De fato, os jovens que já possuíam smartphones apresentavam 30% mais risco de depressão, 40% mais chance de obesidade e 60% mais probabilidade de distúrbios do sono, como a redução nas horas de sono recomendadas.
A pediatra Quíssila Neiva Batista, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, ressalta a importância do estudo ao abordar não apenas o tempo de uso, mas também a idade em que os smartphones são introduzidos na vida das crianças. “Isso representa um avanço, pois mostra que a idade em que o celular entra na rotina da criança pode ser tão impactante quanto o tempo que ela passa utilizando o aparelho”, comenta.
A Complexidade da Relação entre Smartphones e Saúde Infantil
Embora não se possa afirmar que o uso de smartphones cause diretamente problemas de saúde, a associação é clara. Segundo Batista, “afirmar que o smartphone causa depressão ou obesidade é uma simplificação. A relação é complexa e multifatorial”. Crianças mais vulneráveis emocionalmente podem ser atraídas para o uso de celulares, e ambientes familiares menos estruturados tendem a permitir que as crianças tenham acesso a esses dispositivos mais cedo.
A pediatra explica que o smartphone pode ter um efeito amplificador sobre o sedentarismo, a privação de sono e a exposição a estímulos emocionais intensos. “Esse aparelho cria um ambiente digital constantemente estimulante, competindo diretamente com processos essenciais do neurodesenvolvimento da criança”, detalha.
Desenvolvimento Infantil em Risco
A faixa etária entre 8 e 12 anos é crucial para a consolidação do sono, a formação de hábitos saudáveis e o desenvolvimento emocional. A introdução precoce de smartphones pode interferir negativamente nesses processos. “Quanto mais cedo a criança é exposta a estímulos dopaminérgicos constantes, maior a chance de interferir na formação de hábitos saudáveis e de criar dependência comportamental”, adverte a médica do Einstein Goiânia.
Os impactos na saúde são visíveis mesmo em casos onde o uso do celular não é considerado excessivo. A pesquisa indica que crianças entre 8 e 12 anos já passam em média mais de cinco horas por dia em frente às telas.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda limites de uso de telas de acordo com a faixa etária: para crianças de 2 a 5 anos, o máximo é de uma hora por dia; para aquelas entre 6 e 10 anos, de uma a duas horas; e para adolescentes de 11 a 18 anos, de duas a três horas diárias. Além disso, a SBP sugere que o uso de telas seja sempre supervisionado por um adulto.
É importante lembrar que “telas” incluem não apenas smartphones, mas também televisores e tablets, que podem ser menos prejudiciais por serem dispositivos maiores. “Os smartphones não devem ser encarados como uma necessidade inevitável, mas sim como uma ferramenta que requer maturidade para ser utilizada de forma segura”, enfatiza Quíssila Batista.
Independentemente do tipo de aparelho, é recomendável evitar o uso de telas no quarto à noite, estabelecer horários determinados para o uso, priorizar atividades físicas e sociais presenciais e, sempre que possível, optar por dispositivos sem acesso irrestrito à internet para crianças mais novas.
