Uma Mostra de Cultura e Memória
Conhecer a história de um povo é fundamental para garantir a preservação de suas memórias, a valorização de sua cultura e o fortalecimento da identidade coletiva. Com esse objetivo, mulheres quilombolas da Reserva Extrativista (RESEX) Acaú-Goiana, situada no interior de Pernambuco, realizaram a exposição intitulada “Povoação de São Lourenço, o tempo e o quilombo Catucá: Cultura, História e Memória de um povo”. A mostra, que está aberta ao público e com entrada gratuita, segue em cartaz até o dia 31 de março e oferece uma coleção de registros obtidos por meio de uma pesquisa histórico-antropológica realizada na própria comunidade.
O evento cultural acontece na sede da Associação de Marisqueiras e Pescadores da Povoação de São Lourenço (AMPPSL), localizada no Quilombo de Povoação, na cidade de Goiana. A realização da exposição é possível graças ao edital Nº 003/2024 da Política Nacional Aldir Blanc de Pernambuco (PNAB-PE), na categoria IV (Museus e Memória Social).
Um Olhar sobre o Passado
No total, a exposição apresenta 14 fotografias e recortes de jornais que revelam traços históricos, sociais e culturais da Povoação de São Lourenço e sua conexão com o Quilombo Catucá. Ao término da mostra, os arquivos serão doados à associação, como parte da contrapartida do projeto.
A abertura da exposição, que ocorreu no dia 21 de fevereiro, foi marcada pelo lançamento do livro “O Carrego da Lenha”, escrito por Crislaine Venceslau e ilustrado por Daniele Thomaz. A obra homenageia a tradicional procissão, reconhecida como patrimônio cultural imaterial de Pernambuco. O evento contou ainda com a participação de José Antônio da Silva, conhecido como “poeta laureado” e representante da Academia de Artes e Letras de Goiana (AALGO).
Compromisso com a História
Narely Carmo dos Santos, estudante de História e quilombola da mesma comunidade, é a principal idealizadora da exposição “Povoação de São Lourenço, o tempo e o quilombo Catucá: Cultura, História e Memória de um povo”. Ela tem se dedicado cada vez mais a investigar a história de seu povo e participar de diversas atividades acadêmicas e sociais ligadas ao tema. Narely compartilha a organização com Crislaine Venceslau de Andrade, que possui formação em Turismo, é mestra em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e atualmente cursa Pedagogia. Desde 2021, Crislaine tem desenvolvido projetos culturais focados na descentralização de recursos públicos para a cultura e na valorização dos fazedores de cultura do quilombo Povoação, comunidade à qual pertence.
Entre os trabalhos de Crislaine, destaca-se o ebook “Sou Eu Quem Conto”, que reúne 13 poesias acompanhadas de fotos e ilustrações que refletem seu cotidiano e suas vivências.
Preservação e Protagonismo
As organizadoras enfatizam que a iniciativa surge da necessidade de preservar as tradições históricas ancestrais e garantir que o legado da comunidade seja transmitido às novas gerações. “Do meu ponto de vista, enquanto historiadora, percebo uma grande necessidade de que nosso povo conheça suas raízes, através das nossas narrativas e do nosso olhar interno”, pontua Narely.
Ao assumir essa perspectiva, a exposição reitera o protagonismo quilombola na produção de conhecimento sobre sua própria história, desafiando a ideia de que seus territórios sejam tratados apenas como objetos de estudo. “[Queremos] instigar novas reflexões e afirmar que não somos somente objetos, mas também produtores de conhecimento”, complementa Crislaine.
Além de ser um trabalho acadêmico, elas acreditam que essa empreitada também representa um exercício de pertencimento. “Não nos consideramos apenas pesquisadoras, mas indivíduos que cresceram dentro da comunidade. Nosso intuito é dialogar com nosso território e comunicar nossa visão para aqueles que vêm de fora”, conclui a estudante de História.
Para mais detalhes sobre a exposição e o trabalho desenvolvido, você pode visitar o Instagram: www.instagram.com/soueuquemconto/.
