A importância da pesquisa na mitigação de surtos de Chagas na Amazônia
A Embrapa tem se destacado na luta contra a doença de Chagas ao participar da “Oficina de alinhamento: Plano para prevenção de surtos de doença de Chagas-Pará”, que ocorreu em Belém (PA) entre 24 e 26 de março. A pesquisadora Valeria Saldanha Bezerra, chefe-adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Amapá, representou a instituição no evento promovido pelo Ministério da Saúde. Valeria é autora de estudos que utilizam a tecnologia de choque térmico em frutos de açaí (Euterpe oleracea Mart.) para inativar o protozoário Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas. Além disso, ela enfatizou a análise sensorial que revela que consumidores de açaí não percebem alterações no sabor da bebida após o tratamento térmico dos frutos.
A participação da Embrapa nesse tipo de evento ressalta a vital importância da pesquisa científica nas estratégias de saúde pública, especialmente em regiões como a Amazônia, onde fatores ambientais, sociais e econômicos podem potencializar a ocorrência de surtos. A oficina, organizada pela Coordenação-Geral de Vigilância de Zoonoses e Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (CGZHA), reúne especialistas de diversas áreas para discutir ações previstas no Plano Nacional de Saúde (2024-2027). Este plano inclui metas voltadas ao fortalecimento de medidas de controle e eliminação das Doenças Tropicais Negligenciadas, dentre as quais se destaca a doença de Chagas.
Os estudos realizados pela Embrapa Amapá, como parte da pesquisa de doutorado de Valeria Bezerra, evidenciam que o processamento térmico dos frutos de açaí, conhecido como choque térmico, reduz significativamente os riscos de transmissão da doença de Chagas por via alimentar. Este método foi incorporado às recomendações técnicas de boas práticas da Embrapa para o processamento do fruto. A pesquisadora explica que o processo envolve mergulhar os frutos higienizados em água quente a uma temperatura entre 80 °C a 90 °C por aproximadamente dez segundos, seguido por um resfriamento em água limpa à temperatura ambiente por dois minutos.
Valeria Bezerra destaca que o choque térmico deve ocorrer após a seleção e higienização dos frutos, sendo uma etapa crucial nas Boas Práticas de Fabricação do açaí para a inativação do T. cruzi. No entanto, a prevenção exige uma série de cuidados que se inicia na colheita e abrange o transporte, armazenamento e processamento, incluindo a remoção de impurezas e insetos que possam contaminar o alimento.
Além disso, a pesquisadora enfatiza que esse processo térmico não altera a percepção dos atributos sensoriais da bebida, como sabor e coloração. Estudos realizados com consumidores habituais da bebida de açaí revelaram uma aceitação positiva do produto processado após o choque térmico dos frutos, com uma efetiva intenção de compra, desmistificando a ideia de que a sanitização dos frutos possa comprometer a qualidade da bebida. Essas diretrizes são disseminadas em ações de capacitação e em políticas públicas focadas na segurança alimentar na Amazônia.
