Contexto Histórico da Doutrina Monroe
A Doutrina Monroe, uma das pedras angulares da política externa dos Estados Unidos desde 1823, foi recentemente evocada pelo ex-presidente Donald Trump ao comentar sobre a prisão do venezuelano Nicolás Maduro. Essa máxima, que inicialmente visava evitar a colonização europeia no Hemisfério Ocidental, tem servido como justificativa para intervenções dos EUA na América Latina ao longo da história. No último sábado, Trump se referiu à doutrina como um argumento parcial para a captura de um líder estrangeiro sob acusações criminais nos EUA, fazendo alusão à sua própria versão, que ele chamou de “Doutrina Don-roe”.
Especialistas estão revisitando a aplicação da Doutrina Monroe ao longo dos anos, analisando como a administração Trump tenta reinterpretá-la na atualidade. O ex-presidente chegou a afirmar que Washington “administraria” a Venezuela até que um novo líder fosse escolhido para substituir Maduro. A Doutrina Monroe, proclamada por James Monroe, o quinto presidente dos EUA, foi formulada para manter países independentes livres de influências externas, enquanto os EUA se comprometiam a não se envolver nas guerras europeias.
Intervenções Militares e a Venezuela
Desde a sua criação, a Doutrina Monroe tem sido frequentemente utilizada para justificar intervenções militares na América Latina, especialmente em relação à Venezuela. Jay Sexton, professor de história da Universidade de Missouri, aponta que a Venezuela serviu de pretexto para diversas ações militares e intervenções dos EUA ao longo da história. “Historicamente, a Venezuela tem sido o pretexto ou o gatilho para muitos desdobramentos da Doutrina Monroe”, observa Sexton, destacando como a intervenção se intensificou no século XIX e continuou até os dias atuais, com a Venezuela sempre em foco devido à sua instabilidade política e relações conturbadas com potências estrangeiras.
As intervenções começaram com a instalação do imperador Maximiliano no México na década de 1860, quando os EUA pressionaram a França a se retirar. Em 1904, Theodore Roosevelt acrescentou o Corolário de Roosevelt à Doutrina, permitindo a intervenção em países latino-americanos considerados instáveis, um conceito que foi repetidamente utilizado ao longo do século XX, incluindo durante a Guerra Fria e as operações militares na Nicarágua na década de 1980.
Trump e a Doutrina Monroe
Em seus comentários, Trump destacou que o governo de Maduro tem se alinhado com adversários estrangeiros e tem adquirido armamentos que, segundo ele, representam uma ameaça aos interesses dos EUA. “Essas ações constituem uma violação grosseira dos princípios fundamentais da política externa americana que remontam a mais de dois séculos”, afirmou o ex-presidente. Na visão de Trump, a nova estratégia de segurança nacional reafirmaria a influência americana na região, um ponto que ele considera vital para a segurança dos EUA e para a economia global.
Questionado sobre as implicações de os EUA governarem um país estrangeiro, ele defendeu a medida como uma extensão da Doutrina Monroe, buscando fortalecer a nação americana. “Durante décadas, administrações anteriores falharam em lidar com as crescentes ameaças à segurança no Hemisfério Ocidental. Sob nossa administração, estamos reafirmando o poder americano de uma forma contundente em nossa própria região”, argumentou.
O Futuro da Política Externa dos EUA
Após a Segunda Guerra Mundial, os presidentes começaram a formular seus próprios corolários à Doutrina Monroe, como fizeram Harry S. Truman e Richard Nixon. Segundo Sexton, é provável que Trump busque criar uma nova interpretação da doutrina, afastando-se de ser visto como apenas mais um corolário. A estratégia de segurança nacional divulgada recentemente pela Casa Branca reflete uma nova abordagem, com operações militares visadas no combate ao tráfico de drogas e controle da migração, reafirmando a presença militar dos EUA na região.
Por fim, a tentativa de capturar Maduro pode gerar divisões entre os apoiadores do movimento “Make America Great Again” de Trump, especialmente considerando a necessidade de justificar ações controversas sem contradizer a política de retirada das chamadas ‘guerras eternas’. Gretchen Murphy, professora da Universidade do Texas, sugere que a invocação da Doutrina Monroe por Trump está alinhada com as justificativas históricas de seus antecessores, mas destaca que isso poderá encontrar resistência entre setores isolacionistas da coligação MAGA.
