Desafios do Agronegócio Brasileiro em Tempos de Mudanças Econômicas
O agronegócio brasileiro, reconhecido por sua robustez, enfrenta atualmente uma combinação de fatores econômicos que requer atenção dos produtores. Nesta quarta-feira, 28 de janeiro de 2024, a moeda americana voltou a operar abaixo dos R$ 5,20, marcando uma queda significativa ao longo de 2024 e alcançando níveis não observados desde o ano anterior. Essa tendência, que pode persistir até 2026, afeta diretamente os custos, as receitas e as decisões estratégicas no campo.
Paralelamente, a taxa básica de juros (Selic) foi mantida em níveis elevados, conforme anunciado pelo Banco Central na mesma data, como parte das medidas contra a inflação e para a sustentação do real. Embora os juros altos possam fortalecer a moeda nacional ao atrair investimentos estrangeiros, eles também elevam o custo do crédito rural e aumentam os custos de investimentos produtivos. Isso resulta em uma pressão dupla sobre o agronegócio: margens de exportação estreitas e financiamento mais caro para custeio e investimento.
Impactos Econômicos sobre o Setor
Para um setor tão voltado para o mercado externo, um dólar mais baixo apresenta efeitos paradoxais. Em primeiro lugar, essa desvalorização reduz as receitas em reais provenientes das vendas internacionais de commodities como soja, milho, algodão e café — uma vez que cada dólar recebido se converte em menos reais quando o câmbio se desvaloriza. Isso afeta diretamente as margens de lucro dos produtores que não adotaram proteção cambial (hedge).
Por outro lado, um câmbio mais favorável pode aliviar os custos de produção a médio prazo, visto que a maior parte dos insumos agrícolas — especialmente fertilizantes e defensivos — é cotada em dólar. Estudos indicam que cerca de 85% dos fertilizantes e 70% dos defensivos agrícolas utilizados no Brasil são importados, o que implica que uma moeda americana mais barata pode reduzir os custos desses itens para a safra 2026/27.
O Custo do Crédito em Cenário de Juros Altos
Enquanto o dólar pressiona as receitas dos exportadores, a manutenção da Selic elevada torna o financiamento de operações agrícolas mais dispendioso. O crédito rural, essencial para custeio, plantio antecipado e aquisição de maquinário, se torna um fardo maior para os produtores quando os juros estão nas alturas. Essa situação pode desencorajar investimentos em tecnologias, armazenamento e modernização, comprometendo a competitividade do setor a longo prazo. Especialistas em economia alertam que essa combinação de juros altos e câmbio valorizado pode diminuir a atratividade de investimentos internos na agricultura.
Estratégias de Proteção para Produtores Rurais
Diante desse panorama desafiador, é recomendado que os produtores adotem estratégias de gestão de risco financeiro, evitando reações impulsivas a flutuações cambiais ou nas taxas de juros. Algumas estratégias eficazes incluem:
- Hedge cambial: Utilizar contratos futuros ou opções de venda que garantam um preço fixo do dólar para parte das exportações, resguardando-se contra quedas abruptas da moeda.
- Diversificação de janelas de venda: Programar a venda da produção em diferentes momentos para diluir a dependência de um único patamar cambial.
- Planejamento de compras de insumos: Antecipar ou escalonar a aquisição de fertilizantes e defensivos quando a cotação do dólar estiver mais favorável.
- Uso de instrumentos financeiros e seguros agrícolas: Incluir seguros de preço mínimo, opções de venda de grãos e outros contratos que podem suavizar variações de receita.
Uma Visão Estratégica Além do Câmbio
Embora um dólar em queda possa inicialmente parecer um obstáculo para os exportadores, a análise revela que a situação é mais complexa. Câmbio e juros são apenas dois componentes de um cenário mais amplo que influencia a competitividade do agronegócio global, ao lado dos preços internacionais das commodities, custos logísticos e políticas públicas de suporte ao crédito e seguros. Em um ambiente onde as decisões de consumo, investimento e produção estão intimamente ligadas a variáveis macroeconômicas, a habilidade de antecipar cenários e proteger as margens financeiras se torna tão crucial quanto a produtividade no campo.
