Reflexão sobre as Influências Africanas
O Dia Mundial da Cultura Africana e Afrodescente, celebrado no dia 24 de janeiro, foi instituído em 2019 pela UNESCO. Essa data é um convite para reconhecer as ricas e diversas contribuições que as culturas de origem africana trouxeram ao Brasil. A história da diáspora, que se intensificou entre os séculos XVI e XIX, resultou na chegada de milhões de africanos, como bantos, iorubás, jejes e haussás, principalmente no Nordeste. Neste contexto, o dia 24 se torna um momento propício para refletir sobre as influências africanas presentes em nossa cultura e nos vários aspectos da sociedade que podem ser identificados.
A reportagem da CBN Recife conversou com a historiadora e pesquisadora titular da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Cibele Barbosa, e com o professor de Literaturas Africanas e autor do livro “Como surgiu o primeiro Griot”, Rogério Andrade, para discutir a relevância deste dia e as heranças culturais que perduram.
As Diversas Faces da Cultura Africana
Lucas Arruda entrevistou Cibele Barbosa, que enfatizou a complexidade das culturas africanas. “Não existe uma única cultura africana”, destacou. O continente é lar de inúmeras tradições que chegaram ao Brasil através de diferentes grupos. “Falar sobre a cultura brasileira sem considerar a africana é impossível, especialmente em Pernambuco, que centraliza muitos desses povos. Essas culturas foram ressignificadas, reimaginadas e se transformaram no que hoje conhecemos como cultura afro-brasileira. Esse é um mosaico de influências, que inclui interações com indígenas e europeus, formando um verdadeiro caldeirão de saberes e práticas culturais. A religião, com exemplos como o candomblé e a umbanda, que incorporam elementos indígenas, é uma parte fundamental desse processo”, comentou.
Além das crenças religiosas, a historiadora apontou outras manifestações culturais que carregam a marca africana. “Nosso carnaval, por exemplo, deve muito às populações africanas. Ritmos e danças como o frevo têm raízes na capoeira, que é uma expressão cultural profundamente influenciada das culturas africanas, especialmente a angolana. Assim, a presença africana é evidente em várias expressões culturais, refletindo uma fusão entre religiosidade, danças e ritmos que são fundamentais para o nosso carnaval”, ressaltou Cibele.
A Oralidade como Patrimônio Cultural
Em seguida, Lucas Arruda conversou com Rogério Andrade sobre a importância da oralidade nas tradições africanas. Ele destacou que, embora a figura do griô seja muitas vezes confundida com a de um simples contador de histórias, sua função vai muito além. “O griô é um genealogista, um guardião da tradição oral”, afirmou Andrade. Esses indivíduos têm um papel crucial na preservação da memória cultural, atuando como mestres de cerimônias, intérpretes, músicos e contadores de histórias, exaltando a linhagem dos reinos africanos e mantendo viva a tradição oral.
“Para ser um griô, é necessário pertencer a uma família de griôs”, explicou Rogério. Ele ressaltou que essas famílias, que incluem também as griotes, as mulheres griôs, desempenham um papel fundamental na transmissão de saberes e histórias. Desde a infância, os futuros griôs são levados a seguir os passos dos pais, participando de apresentações e aprendendo as narrativas que compõem a rica tapeçaria da cultura africana.
Preservação das Tradições Africanas no Brasil
Rogério Andrade também abordou como as tradições africanas se perpetuam no Brasil. Ele lembrou que a cultura africana é essencialmente oral, e as histórias, provérbios e saberes são transmitidos de geração em geração. “As histórias são uma forma de união nas comunidades. Ao anoitecer, ouvir histórias é um ritual que conecta as pessoas”, afirmou. A literatura africana, que se fundamenta na oralidade, continua a ser um pilar importante, com autores africanos de língua portuguesa, como Mia Couto, Pepetela e Jack Cope, sendo reconhecidos e publicados no Brasil. Dessa forma, a riqueza cultural africana se mantém viva e relevante, demonstrando a força das tradições que vão além dos oceanos.
