Investigação Aprofunda os Recursos Desviados
A Polícia Federal (PF) desvendou um esquema de corrupção envolvendo o ex-prefeito de Macapá, Antônio Paulo de Oliveira Furlan, conhecido como dr. Furlan (PSD). Recentemente, foram encontrados em uma residência ligada ao motorista do ex-prefeito anotações que indicam depósitos fracionados totalizando R$ 3 milhões. Esses valores estão vinculados a contas de Furlan e supostamente foram utilizados para alimentar uma rede de propinas oriundas do desvio de recursos de quatro emendas parlamentares, que somam R$ 128,9 milhões, além de irregularidades em uma licitação para a construção do Hospital Geral Municipal, no valor de R$ 69,3 milhões.
O Estadão entrou em contato com dr. Furlan e a Santa Rita Engenharia, empresa contratada sob suspeita de ter participado da fraude. O ex-prefeito refutou as acusações e, por meio de uma nota, a Santa Rita destacou que, em 30 anos de atuação, nunca enfrentou qualquer problema legal ou condenação, reafirmando seu compromisso com a ética no setor de construção.
A PF descobriu detalhes sobre o esquema de propinas durante uma busca na casa de Jerqueson da Costa Rodrigues, motorista de dr. Furlan, que supostamente atuava como transportador do dinheiro ilícito. Em setembro do ano anterior, agentes da PF acompanharam Jerqueson em várias viagens por Macapá, utilizando um Fiat Cronos branco, que pertence ao ex-prefeito.
O inquérito da PF detalha que os principais beneficiários dos depósitos de R$ 3 milhões incluem o Instituto Medicina do Coração Ltda, de propriedade de Furlan, e a RCFS Médicos Ltda, que tem Rayssa Furlan, esposa do ex-prefeito, como responsável. Além disso, uma transferência de R$ 100 mil foi rastreada, feita por um dos sócios da Santa Rita Engenharia, em favor da ex-esposa do prefeito, Isabella Cristina Moreira Favacho.
Outro receptor de quantias significativas é Hulgo Márcio Bispo Correa, aliado de dr. Furlan e responsável pelo Instituto de Medicina do Coração Ltda, que é a Clínica do Coração Dr. Furlan.
A PF levantou indícios de que uma organização criminosa operava na Secretaria Municipal de Saúde de Macapá, e também na Santa Rita Engenharia, que teve seu sigilo quebrado por ordem do ministro Flávio Dino.
Movimentações Suspeitas e Saques em Espécie
As suspeitas sobre o esquema de corrupção na gestão de dr. Furlan foram detalhadas em um relatório enviado ao STF. A PF mapeou saques em espécie, logo após a assinatura do contrato com a empresa Santa Rita, levantando a hipótese de que os recursos públicos tinham sido desviados de sua finalidade original. Os investigadores notaram uma movimentação anormal de fundos, com saques em dinheiro que não foram reinseridos no sistema bancário.
Para a PF, a quantidade de saques, que somava quase 60, apontava para uma movimentação financeira que não fazia sentido dentro do contexto empresarial da Santa Rita Engenharia, sugerindo dissimulação e ocultação de suas verdadeiras destinações. Em um dos casos, Rodrigo Moreira, sócio da empresa, foi flagrado em um saque de R$ 400 mil, que, segundo as investigações, poderia ter sido redistribuído de maneira clandestina.
Outras diligências indicaram que a logística do transporte do dinheiro era cuidadosamente planejada, incluindo a utilização de mochilas e a movimentação entre residências e estabelecimentos comerciais ligados aos envolvidos. Em um episódio, um homem identificado como portador de uma mochila preta foi visto entrando e saindo de um laboratório, o que reforçou os indícios de um esquema elaborado para movimentar os recursos.
Repercussões e Acompanhamento da PF
A PF continuou seu monitoramento sobre os envolvidos nos dias seguintes, identificando residências e movimentações que levantaram ainda mais suspeitas sobre a interação entre os suspeitos na distribuição do dinheiro. Com a confirmação das identificações e ligações, a equipe policial estabeleceu que havia uma rede complexa de colaboração entre os sócios da Santa Rita e outros implicados no esquema.
A sequência de ações, que incluía saques vultosos em dinheiro e movimentações frequentes entre diferentes endereços, apontava para um elo claro na operação de repasse de vantagens indevidas a dr. Furlan, que tinha controle sobre as contratações públicas investigadas. O prefeito não apresentou justificativas plausíveis para os recebimentos dos valores, corroborando as alegações da PF sobre a natureza ilícita dos recursos.
As evidências apresentadas sugerem que os recursos públicos destinados à Santa Rita Engenharia foram, em grande parte, desviados, beneficiando diretamente o ex-prefeito, através de uma rede de lavagem de capitais que envolvia familiares e aliados políticos. Em resposta a essa complexa trama de corrupção, a PF está intensificando seus esforços para garantir que os responsáveis sejam levados à justiça.
