A Necessidade de Vontade Política no Combate ao Desmatamento
O combate ao desmatamento no Brasil, embora tenha soluções viáveis, enfrenta um obstáculo crucial: a falta de vontade política. Essa é a percepção da jornalista Marina Rossi, autora do livro O Cerco, a Amazônia Invadida pelo Agro, que dedicou mais de uma década à investigação da cadeia da carne e dos conflitos fundiários na Amazônia. Segundo ela, existem propostas em discussão por especialistas e organizações, além de setores do próprio mercado, mas a implementação efetiva ainda esbarra em diversos desafios.
Rossi afirma que “há solução, sem dúvida. Tem muita gente boa debruçada sobre essa problemática hoje e propondo soluções viáveis”. No entanto, ela ressalta que iniciativas isoladas não são suficientes para enfrentar um problema tão complexo e estrutural, que se arrasta por décadas.
Articulação e Medidas Eficientes São Essenciais
Para enfrentar o desmatamento, é fundamental a articulação entre diferentes frentes de atuação. Entre as medidas sugeridas, destaca-se o fortalecimento da fiscalização e a implementação de mecanismos de rastreabilidade mais eficientes na cadeia produtiva. Um exemplo é o Plano Nacional de Rastreabilidade, frequentemente mencionado como uma ferramenta crucial para monitorar a origem da produção pecuária.
No entanto, a implementação desse plano ainda enfrenta desafios significativos. Rossi explica: “É um caminho, mas depende de muitos fatores, como a aplicação real no chão da fazenda, os buracos que podem permitir fraudes e a adesão dos produtores”. A situação é alarmante, pois as mudanças climáticas já estão impactando severamente as safras agrícolas, o que poderia ser um catalisador para a mudança de mentalidade dentro do setor agropecuário.
Um Olhar Crítico sobre a Indústria Pecuária
Marina Rossi conversou com a Opera Mundi sobre sua investigação que resultou no livro O Cerco. Ela começou seu estudo na cadeia de produção de carne quando ingressou na Repórter Brasil, em 2022, após já ter abordado questões como meio ambiente e desmatamento durante sua passagem pelo El País Brasil. A jornalista destaca que sua pesquisa a levou a entender a origem do caos fundiário na Amazônia, consultando documentos e entrevistando especialistas para traçar um panorama dos conflitos de terra na região.
De acordo com Rossi, o Brasil vive uma luta constante entre interesses económicos e a preservação ambiental. A autora menciona a “bancada do boi” como uma força política significativa que atua no Congresso em defesa dos interesses do agronegócio. “Essa bancada sempre existiu, e sua força é histórica, influenciando decisões políticas que afetam diretamente o meio ambiente”, aponta.
A Bancada Ambientalista e os Desafios de Organização
Embora a bancada ambientalista também exista, Rossi destaca que ela é menos organizada e com menos força do que a bancada do agronegócio. “Os interesses econômicos, que estão atrelados a grandes multinacionais e ao agronegócio, dominam o cenário político, tornando muito difícil a luta pela preservação ambiental”, analisa.
Com o acordo entre Mercosul e União Europeia, há uma expectativa de rigor na imposição de regras contra o desmatamento, incluindo a exigência de rastreabilidade total para exportações de soja e carne. Rossi acredita que, apesar de potencialmente positivo, esse cenário ainda se enfrenta a desafios, uma vez que a maior parte da carne produzida no Brasil é consumida internamente, e somente uma pequena parte é destinada à Europa.
Rastreabilidade e Sustentabilidade: Caminhos em Debate
Apesar de o Plano Nacional de Rastreabilidade surgir como uma alternativa promissora para reduzir o desmatamento, Rossi enfatiza que sua eficácia depende de uma implementação adequada e de um plano integrado que considere diversos fatores, como a adesão dos produtores e a supervisão rigorosa do desmatamento. “Para realmente zerar o desmatamento, precisamos de vontade política e de uma abordagem que una todas as partes envolvidas”, conclui.
Sobre a conscientização no setor agropecuário, a autora acredita que já há avanços, principalmente por razões econômicas. “As mudanças climáticas estão levando embora safras inteiras, e isso é consequência do desmatamento. A grande questão é se essa conscientização ocorrerá a tempo de evitar um colapso ambiental”, diz Rossi.
O Papel da Política nas Questões Ambientais
Em um ano eleitoral, a jornalista pondera se a questão ambiental será um tema decisivo. Para ela, essa preocupação ainda é vista como um tema da esquerda, embora todos os setores da sociedade enfrentem suas consequências. Rossi critica a falta de uma abordagem mais ampla e integrada em relação às mudanças climáticas e ao meio ambiente, reconhecendo a necessidade urgente de discutir esses temas de forma mais abrangente.
A violência rural, segundo Rossi, é outra questão pouco abordada na mídia. “É um problema que precisa de mais atenção, mas a cobertura geralmente é deficiente”, observa. Ao finalizar, a jornalista reafirma que existem soluções viáveis para controlar o avanço da pecuária na Amazônia, mas que a efetivação delas depende crucialmente da vontade política.
