Desafios do Turismo de Massa nas Praias Brasileiras
O cenário do turismo nas principais praias do Brasil tem gerado preocupações. Recentemente, após conflitos em Porto de Galinhas, a prefeitura de Ipojuca (PE) decidiu proibir a exigência de consumação mínima na faixa de areia. Outras cidades, como Niterói (RJ), estabeleceram limites para o aluguel de barracas na praia, e locais como Florianópolis (SC), Arraial do Cabo (RJ) e Ubatuba (SP) intensificaram a fiscalização sobre as atividades turísticas.
Além das regulamentações comerciais, há um esforço crescente para controlar o número de visitantes em áreas de proteção ambiental. Destinos como Jericoacoara (CE), Ilha Grande (RJ) e Morro de São Paulo (BA) implementaram taxas de visitação, enquanto nos Lençóis Maranhenses (MA), recentemente reconhecido como Patrimônio Natural Mundial pela Unesco, os gestores estudam um limite diário para as visitas.
Restrições e Exemplos Internacionais
Em diversas partes do mundo, a implementação de restrições e limitações temporárias de visitação tem sido uma estratégia eficaz para preservar o patrimônio natural. Exemplos incluem Monte Fuji, no Japão, que reduziu o horário e a quantidade de visitantes, e Machu Picchu, no Peru, que também controla a frequência diária. Outras cidades, como Veneza, na Itália, e Mallorca, na Espanha, adotaram medidas semelhantes.
No Brasil, o turismo internacional atingiu um marco histórico em 2024, com a chegada de 9,3 milhões de turistas estrangeiros, um aumento significativo em comparação ao ano anterior, que foi de 6,7 milhões. Os argentinos representam a maior parte dos visitantes, seguidos por chilenos, norte-americanos, paraguaios e uruguaios.
A movimentação dos turistas estrangeiros é acompanhada pelo crescente interesse dos brasileiros em destinos nacionais. Ana Carla Lopes, secretária-executiva do Ministério do Turismo, destacou a urgência de uma ‘política integrada’ que envolva os setores público e privado e a participação da sociedade civil para que o turismo continue em expansão de maneira sustentável. Segundo ela, é essencial respeitar a realidade de cada localidade.
Políticas Públicas para Sustentabilidade no Turismo
A discussão sobre taxas de visitação e incentivos para moradores locais está se tornando cada vez mais relevante. Lopes enfatizou que o impacto do turismo de massa deve ser cuidadosamente analisado, especialmente em destinos vulneráveis a mudanças climáticas.
O recente incidente em Porto de Galinhas culminou no indiciamento de 14 pessoas pela Polícia Civil. O cartão-postal pernambucano recebeu 1,2 milhão de visitantes em 2025, uma cifra alarmante se comparada aos 937 mil de 2019. Essa situação revela as consequências do crescimento desordenado, que, embora tenha contribuído para o aumento do PIB local, também trouxe problemas sérios como falta de saneamento e desordem urbana.
O urbanista Zeca Brandão, que coordenou um projeto de qualificação urbana em Ipojuca em 2005, observou que o crescimento populacional da cidade, que saltou de 50 mil para 106 mil habitantes, está diretamente ligado à expansão do turismo. A falta de planejamento tem resultado em uma infraestrutura deficiente, aumentando os problemas de mobilidade e serviços básicos.
Crescimento Acelerado e Necessidade de Planejamento
Matteo Soussinr, proprietário de uma pousada sustentável em Santo Amaro, nos Lençóis Maranhenses, testemunhou o crescimento acelerado daquela região. Com quase 20 mil habitantes, a cidade recebe três vezes mais visitantes na alta temporada, um aumento notável de 61 mil visitantes em 2021 para 297 mil no ano passado.
A visitação ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses aumentou 191% desde a pandemia, o que motivou uma análise para entender a capacidade de suportar esse volume de visitantes. Soussinr alertou que a contaminação do lençol freático é uma preocupação crescente, já que as taxas de R$ 10 para três dias de estadia e impostos sobre passeios são insuficientes para gerenciar o turismo.
Mariana Aldrigui, pesquisadora da USP, destaca que as políticas públicas para o turismo no Brasil ainda são incipientes, focando mais na promoção de destinos do que no planejamento do desenvolvimento urbano. Para ela, essa abordagem reativa pode levar a problemas sérios, como a especulação imobiliária e crescimento desordenado, se não houver uma intervenção adequada.
Impacto do Turismo de Massa e Iniciativas Futuras
Em 2024, os Parques Nacionais do Brasil bateram recorde de visitações, com 12,4 milhões de entradas. O ICMBio reconhece que o turismo de massa é uma realidade nas principais atrações do país e está trabalhando para melhorar a infraestrutura e a sustentabilidade em conjunto com a biodiversidade. O Ministério do Turismo também se comprometeu a promover uma gestão responsável dos destinos, diversificando a oferta turística e evitando a concentração excessiva de visitantes em locais específicos, com iniciativas como o Programa Lixo Zero e a atualização do Mapa do Turismo Responsável.
