A CPMI do INSS e a Transformação do Debate Público
A cena de tumulto, gritos e a suspensão da sessão na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS não pode ser vista como um mero incidente isolado; é um sinal preocupante de um problema mais profundo. A comissão, encarregada de investigar fraudes e descontos irregulares em benefícios de aposentados e pensionistas, deveria operar com base em princípios como prova, contraditório e responsabilidade institucional. No entanto, o que se observa é uma transformação dessa dinâmica em um verdadeiro ringue de disputas. Nesse cenário, o Parlamento parece ter abandonado sua função deliberativa, adotando uma lógica que prioriza a vitória no embate midiático em detrimento da busca pela verdade. A investigação, que deveria ser um exercício racional, se transforma em um pretexto para a exibição pública de rivalidades, fazendo do país uma plateia e do Estado um palco para a performance do ressentimento.
Desde 2018, um novo padrão se consolidou na política brasileira: a concepção da política como uma guerra cultural incessante. Não se trata apenas de polarização eleitoral, mas sim de uma polarização afetiva que transforma divergências em inimizade. Essa dinâmica mina as mínimas condições de convivência democrática. Estudos recentes no Brasil evidenciam esse ciclo de radicalização e cristalização identitária, com repercussões diretas no comportamento de agentes e instituições. Nesse contexto, a representação política deixa de ser uma mediação entre interesses sociais e políticas públicas, passando a ser uma encenação constante voltada para as bases digitais. O parlamentar que se destaca pela habilidade de “lacrar” conquista prestígio político, enquanto aqueles que se dedicam ao estudo, à negociação e à composição são vistos como fracos. A retórica se sobrepõe ao trabalho técnico; ataques pessoais substituem os argumentos, e a desordem se torna um método — desorganizar o processo, em muitas ocasiões, é uma estratégia eficaz para evitar conclusões incômodas.
Os Efeitos Nefastos da Desordem Política
O resultado desse cenário são consequências devastadoras, manifestadas em três vetores principais: o anti-institucionalismo performático, o oportunismo midiático e o empobrecimento deliberativo. Pesquisas indicam que a atuação parlamentar se reconfigura em torno de disputas discursivas e enquadramentos que exploram sentimentos como medo, ressentimento e punitivismo, ao invés de promover uma racionalidade pública efetiva. Além disso, a mediatização provocada pelas redes sociais tem impulsionado um padrão de conduta nos deputados, focado em visibilidade e engajamento, o que reforça a ênfase em simplificações, conflitos e conteúdos superficiais, em detrimento das políticas públicas substanciais. Assim, as CPIs e CPMIs, que deveriam ser ferramentas sérias de fiscalização, frequentemente se transformam em fábricas de recortes, insinuações e teatralidade: muito barulho com pouca verdade, muita indignação e pouca consequência.
Não é surpresa que a percepção pública reflita essa degradação. Levantamentos recentes apontam uma elevada insatisfação em relação ao desempenho da Câmara e do Senado, evidenciando a crescente distância entre a liturgia do cargo e a prática cotidiana de espetáculos. Portanto, a crítica que se faz não é uma questão de moralismo, mas sim um diagnóstico institucional. O Parlamento não deve ser visto como um palco de vaidades; é uma peça central do Estado democrático. Quando seus membros normalizam o caos como estratégia e trocam o compromisso com o interesse público por cliques e grupos, eles degradam o conceito de representação. O Brasil não precisa de “personagens” em comissões, mas sim de legisladores comprometidos. Enquanto a incivilidade continuar a render mais do que a competência, novas sessões serão suspensas — e, mais preocupante ainda, a democracia será interrompida a cada escândalo encenado.
