Pablo Marçal e sua Consultoria Polêmica
Documentos obtidos pelo GLOBO e pela rádio CBN na Junta Comercial de São Paulo revelam que o empresário Sabará fundou duas empresas focadas em publicidade e treinamento no ano passado. Uma delas, denominada Unipoli, que é a abreviação de “Universidade Política”, oferece cursos online por R$ 496. A plataforma defende que a educação política não é adequadamente abordada nas escolas, alegando que, quando é, ocorre de forma ideológica.
Inicialmente, o projeto, que se concentrava em cursos de curta duração, foi apresentado em Alphaville, durante um evento em novembro passado chamado “Como destravar o Brasil”. A reportagem apurou que a consultoria faz parte de uma nova iniciativa chamada “Máquina de Votos”, que exibe um logotipo estilizado com a letra “M” e se dedica à estratégia digital. Apesar de não divulgar a lista de seus clientes, Sabará afirma que os contratantes incluem candidatos a deputado e ao Executivo.
Marçal, que já foi candidato a prefeito de São Paulo, adotou uma abordagem controversa durante sua campanha. Em um discurso, ele declarou: “Eu já venho levantando um batalhão há muito tempo. Na próxima eleição, vamos conquistar o parlamento inteiro. Em estados onde o PT não tiver nenhum prefeito, vamos realizar festas de sete dias. A celebração será grande!”
No Instagram, a página da consultoria, que até então recebeu pouca divulgação, possui apenas 25 seguidores, incluindo o ex-deputado estadual Frederico D’Ávila (PL-SP), um nome conhecido no agronegócio paulista. D’Ávila confirmou o contato e aguarda uma proposta. Ele já havia disputado uma vaga na Câmara há quatro anos, logo após um episódio polêmico na Assembleia Legislativa, mas não obteve sucesso. Nomes ligados ao PP de São Paulo também aparecem na conta, mas o presidente estadual do partido, deputado federal Maurício Neves, não esclareceu se há alguma ligação com o novo projeto de Marçal.
Controvérsias e Consequências
Durante sua candidatura em 2024, Marçal foi alvo de controvérsias, incluindo acusações infundadas contra o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL), insinuando o uso de drogas sem provas concretas. Essa tática culminou na divulgação de um laudo falso antes do primeiro turno das eleições. Marçal também gerou tumultos em debates e viu um de seus assessores agredir o marqueteiro de Ricardo Nunes (MDB), além de ter sido agredido por José Luiz Datena (PSDB).
Em uma tentativa de justificar sua postura agressiva, ele comentou que precisou “agir como um idiota” para se destacar em uma corrida em que dispunha de menos recursos do que seus concorrentes. No final das contas, Marçal terminou a disputa em terceiro lugar e acabou sendo condenado à inelegibilidade em 1ª e 2ª instâncias devido aos chamados “campeonatos de cortes” que organizou na plataforma Discord durante a pré-campanha. Ele prometeu recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Além de Sabará, outros nomes envolvidos no curso incluem Rodrigo Kherlakian, que se apresenta como empreendedor e filósofo estoico nas redes sociais, e Daniel Gonzales, que utiliza técnicas de neurociência na educação e mantém uma página de viés conservador no Twitter. Entretanto, apenas Sabará figura como sócio-administrador da empresa, embora a assessoria de Marçal tenha confirmado que ele participa das atividades comerciais.
Advogados especialistas em Direito Eleitoral ressaltam que influenciadores podem atuar nas eleições, oferecendo serviços de assessoria política e marketing, mas não têm permissão para cobrar pelas postagens em suas próprias redes ou receber vantagens em troca de apoio. Portanto, tanto Sabará quanto Marçal podem prestar consultoria visando às eleições de 2026, desde que não façam propaganda explícita dos candidatos com os quais têm acordos comerciais.
Repercussões na Campanha de Flávio Bolsonaro
A iniciativa de Sabará tem gerado desconforto entre os aliados do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Em 2024, Marçal competiu contra Ricardo Nunes, que contava com o apoio formal do ex-presidente Jair Bolsonaro e do atual chefe do Executivo paulista. Ao longo da campanha, Marçal tentou se posicionar como o legítimo representante da direita, buscando deslocar Nunes do seu espaço político.
Recentemente, Flávio Bolsonaro surpreendeu ao comparecer a um evento de Marçal, onde recebeu seu apoio. Essa aproximação levanta questões sobre a viabilidade de Tarcísio dividir um palanque com Marçal, que também teve desavenças com Nunes. Durante um de seus comentários, Marçal disse: “A cada vez que alguém mencionar meu nome, vou responder com energia.”
Em dezembro do ano passado, Sabará se reuniu com o governador de São Paulo, atuando como emissário do filho “01” de Bolsonaro. Durante a conversa, ele solicitou que Tarcísio fizesse postagens em apoio a Flávio e ajudasse nas articulações políticas. Segundo pessoas próximas, Tarcísio informou que a campanha ainda não começara e que Flávio teria o suporte necessário no momento certo.
Um aliado de Tarcísio mencionou, sob condição de anonimato, que Flávio parece estar ampliando sua influência agora, com planos de eventualmente restringi-la, acreditando que Sabará não será uma figura marcante durante a campanha. Antes de se envolver com Marçal, Sabará ocupou o cargo de secretário de Assistência Social na administração de João Doria e tentou se candidatar a prefeito pelo partido Novo, em 2020.
