Investigação da Polícia Federal em Macapá
Mensagens, áudios e imagens adquiridas pela Polícia Federal (PF) indicam um esquema de compra de votos durante as eleições municipais em Macapá (AP) em dezembro de 2020. Após um período de cinco anos, o inquérito foi concluído, resultando em denúncias do Ministério Público Eleitoral (MPE) contra 14 indivíduos, incluindo o atual prefeito, Dr. Furlan (MDB), e seu irmão, João Furlan, que, no momento, está afastado de suas funções como promotor de Justiça devido a orientações do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
A CNN Brasil teve acesso a detalhes das investigações que expõem conversas entre João Furlan e Gleison Fonseca da Silva, um motorista que fez o contato direto com os eleitores. Nos diálogos, eles discutem o envio de quantias em dinheiro, cestas básicas e a logística de transporte dos eleitores.
Crimes Durante as Eleições de 2020
Gleison Fonseca da Silva foi detido no dia do segundo turno das eleições de 2020, enquanto estava em um veículo. Durante a ação da PF, agentes observaram diversos eleitores recebendo dinheiro de dentro do carro. Após a abordagem, ele foi levado para a Superintendência da PF e seu celular foi confiscado, mas a recuperação dos dados não foi bem-sucedida inicialmente.
Somente um ano e dois meses após a apreensão, em fevereiro de 2021, a PF obteve autorização para acessar os dados do celular, onde foram descobertas mensagens que fundamentaram os inquéritos e identificaram outros participantes da suposta trama.
Dr. Furlan foi eleito prefeito de Macapá no segundo turno, obtendo 55,67% dos votos válidos e superando o candidato Josiel Alcolumbre (União), irmão do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Mensagens Reveladoras
As mensagens que a PF conseguiu acessar demonstram a participação ativa de João e Dr. Furlan no esquema. Em uma das mensagens, o promotor orienta: “Entrega 13 [cestas básicas] para ela, tá, que ela vai pegar contigo. Vou te mandar o número.” Em outro diálogo, Gleison solicita a transferência de R$ 150 para Dr. Furlan, que prontamente responde que irá enviar o valor pessoalmente.
João Furlan ainda instrui Gleison por áudio: “Coló [Gleison], tem como levar R$ 100 lá no Paulinho Samoa, no Mucajá?”. Além de enviar cestas básicas e dinheiro, as mensagens revelam que a campanha também contratou motoristas de aplicativo para transportar eleitores, organizando grupos com destinos e fazendo o registro do transporte com fotos enviadas aos organizadores.
Organização Criminosa e Afastamento de João Furlan
O relatório do Ministério Público Eleitoral indica que as atividades realizadas caracterizam a formação de uma organização criminosa entre os denunciados, voltada para a compra de votos na campanha de 2020. O MPE afirmou que as ações ilícitas configuram corrupção eleitoral, com a entrega de dinheiro e cestas básicas, além do transporte irregular de eleitores durante as eleições.
Em decorrência da investigação, o CNMP decidiu afastar João Paulo Furlan por 60 dias, devido à suspeita de envolvimento na compra de votos para favorecer a eleição de seu irmão. A decisão foi assinada pelo corregedor-geral, Ângelo Fabiano Costa, em 13 de janeiro, impedindo o promotor de acessar o prédio e os sistemas do Ministério Público. A medida foi justificada por condutas consideradas incompatíveis com seu cargo, destacando possíveis práticas de improbidade administrativa.
Procurado pela CNN, João Paulo Furlan manifestou surpresa com o afastamento, alegando que não foi consultado antes da decisão e que o caso já havia sido arquivado pelo CNMP em 2022. Ele se comprometeu a recorrer da decisão, a qual considera arbitrária.
Por sua vez, Dr. Furlan nega qualquer irregularidade nas eleições de 2020 e critica a alegação de organização criminosa, chamando atenção para o vazamento de documentos que estão sob segredo de justiça. O MPAP, o MP Eleitoral e o CNMP informaram que não podem se pronunciar sobre o caso, que segue em segredo de justiça.
A CNN Brasil também buscou contato com a defesa de Gleison Fonseca da Silva, mas até o fechamento desta matéria, não obteve resposta.
