Conexões Políticas nas Direções dos Fundos de Previdência
Os líderes dos fundos de previdência estaduais que investem as maiores quantias em letras financeiras do Banco Master têm, em sua maioria, histórico na política. A informação foi confirmada por apurações da Folha de S.Paulo. Exemplos notáveis incluem o presidente da Amprev, Jocildo Silva Lemos, que foi alvo de uma operação da Polícia Federal nesta sexta-feira (6), e o ex-presidente do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, preso em uma ação policial na terça (3). Ambos os fundos gerenciam aposentadorias e pensões dos servidores estaduais do Amapá e do Rio de Janeiro, respectivamente.
Conforme dados do Ministério da Previdência Social, divulgados em novembro, a Amprev destinou R$ 400 milhões a letras financeiras do Banco Master, enquanto o Rioprevidência lidera com R$ 970 milhões. Os números referem-se ao período entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. É importante destacar que as letras financeiras não têm a garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), o que significa que há um risco real de perdas para as instituições após a liquidação do Banco Master, que está no centro de um esquema de irregularidades.
Amprev e a Ligação com Davi Alcolumbre
Jocildo Silva Lemos assumiu a presidência da Amprev em janeiro de 2023. Em um evento no ano seguinte, ele destacou que foi nomeado pelo senador Davi Alcolumbre (União-AP), que retornou à presidência do Senado em fevereiro de 2025. Durante a premiação, Jocildo fez um agradecimento especial ao governador Clécio Luis, além de elogios ao senador. “Aqui eu faço um agradecimento especial ao governador Clécio Luis, que fez a nomeação, e sobretudo ao senador Davi Alcolumbre, que me convidou para ser o presidente da Amapá Previdência”, disse em 2024.
Apesar das conexões, Alcolumbre não está entre os alvos da recente operação da Polícia Federal. A Folha tentou entrar em contato com a assessoria do senador para comentar, mas não obteve retorno até a finalização desta reportagem. Informações da imprensa local indicam que Jocildo já atuou como tesoureiro da campanha de Alcolumbre e teria representado o senador em eventos no estado.
Reação da Amprev e Investimentos
A Amprev agora enfrenta um dilema relacionado a seus investimentos no Banco Master. A entidade se declarou lesada e afirma que não abrirá mão de ser ressarcida. Em nota, a administração estadual comentou que já tomou todas as medidas judiciais necessárias, incluindo o bloqueio de pagamentos ao banco. Segundo a instituição, os investimentos realizados no Master foram validados pelo Banco Central e representam 4,7% da carteira da Amprev.
Segundo a administração, sob sua gestão, o patrimônio da Amprev cresceu 41% entre 2023 e 2025, assegurando que os aposentados e pensionistas terão garantidos seus pagamentos até 2059.
Histórico do Rioprevidência
Por outro lado, o Rioprevidência também está sob a lupa das autoridades. Deivis Marcon Antunes dirigiu a instituição de julho de 2023 até janeiro de 2026, quando pediu demissão e foi exonerado pelo governador Cláudio Castro (PL). Informações obtidas pela reportagem indicam que a indicação de Deivis e outros diretores do fundo teria partido do União Brasil, partido que faz parte da base de apoio ao governo Castro e está vinculado ao mesmo grupo político de Alcolumbre.
Antes de sua nomeação ao Rioprevidência, Deivis ocupou um cargo em comissão na Secretaria de Estado de Transportes desde janeiro de 2022, mas a exoneração ocorreu apenas no final de 2023. Curiosamente, essa experiência não aparece em seu currículo atual, que já não está disponível em versão atualizada no site do Rioprevidência. A nomeação para a Secretaria ocorreu no período em que André Nahass, também advogado, ocupava a pasta. A defesa de Deivis contestou a ideia de que sua nomeação foi de natureza política, alegando que ele é um profissional qualificado com vasta experiência na área de previdência.
Abertura de CPI e Declarações de Deivis
Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), deputados de oposição ao governador Cláudio Castro têm solicitado a abertura de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar as nomeações de diretores do Rioprevidência e suas transações com o Banco Master. Ao enviar sua carta de demissão, Deivis afirmou ter promovido um “ciclo virtuoso de gestão” no Rioprevidência e destacou seu comprometimento com a ética e a responsabilidade durante todo o período em que esteve à frente do órgão.
“Repilo tentativas de inquinar como ilegal qualquer ato que pratiquei na gestão do Rioprevidência”, enfatizou Deivis na carta, reiterando seu compromisso com princípios éticos ao longo de sua carreira.
