Um Patrimônio que Conta Histórias
A cerâmica tapajônica é um dos vestígios arqueológicos mais significativos da Amazônia, revelando detalhes sobre o cotidiano, as crenças e a estrutura social dos povos Tapajó, que habitaram Santarém muito antes da chegada dos europeus. Buscando valorizar e promover essa herança cultural, a Prefeitura de Santarém, por meio da Secretaria Municipal de Turismo (Semtur), organizou uma visita técnica ao Ateliê Arte Tapajônica no último dia 11. O ateliê, que está localizado na Rua Beija-Flor, nº 100, no bairro Jardim Santarém, é conhecido por produzir peças artesanais e realizar oficinas sobre técnicas tradicionais de modelagem à base de barro. Tornou-se um ponto de referência para quem deseja aprender a arte da cerâmica ou adquirir peças inspiradas na rica tradição amazônica.
O espaço, que faz parte de uma iniciativa de resgate cultural, é liderado pelo ceramista Jefferson Paiva, um apaixonado pela cerâmica desde a infância. Ele é da terceira geração de uma família dedicada a esse ofício e, atualmente, está se aprofundando em sua pesquisa acadêmica como mestrando no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Museu Paraense Emílio Goeldi (PPGDS/MPEG). Jefferson, que começou sua jornada criando brinquedos de barro, transformou sua paixão em carreira ao longo dos anos.
A Arte da Cerâmica e a Ancestralidade
Jefferson Paiva possui especialização em sete estilos cerâmicos, incluindo as tradições Tapajônica e Konduri (no oeste do Pará), Marajoara (da Ilha do Marajó), além de estilos do Amapá e do Amazonas. Com essa bagagem cultural, ele desenvolve peças contemporâneas que evocam a rica herança indígena, conhecidas como cerâmica Tapajoara. Durante a visita técnica, o secretário municipal de Turismo, Emanuel Júlio Leite, destacou a relevância da arqueologia na compreensão da história dos indígenas da região.
Entre as iniciativas que Jefferson apresentou, destaca-se a proposta de criação de um Museu Comunitário da Cerâmica Tapajônica. O objetivo é reunir réplicas de peças, tornando esse patrimônio mais acessível ao público, ao mesmo tempo que promove a educação patrimonial e a valorização cultural. “Queremos que as pessoas se conectem com suas raízes e compreendam a importância da cerâmica na história de Santarém. Assim, também incentivamos o turismo, permitindo que visitantes de outras regiões conheçam a rica cultura local”, explicou Jefferson.
Preservando Saberes e Traduzindo Histórias
A proposta de criar um espaço onde as pessoas possam aprender a fazer cerâmica tem ganhado força. Jefferson acredita que, além da valorização cultural, a prática da cerâmica pode funcionar como uma forma de terapia para muitos. Ele também se dedica a incentivar novos ceramistas na região, compartilhando seu conhecimento com suas filhas e outras pessoas interessadas. “O meu sonho é que esta tradição continue viva, mesmo após minha passagem. É um legado que pertence não só à minha família, mas à cultura do povo Tapajó”, disse.
Arqueologia e a Riqueza Cultural de Santarém
Estudos arqueológicos revelam que a área de Santarém foi povoada por diversas comunidades indígenas muito antes da colonização europeia. Embora o conceito de cidade não existisse, as evidências de ocupação demonstram uma significativa concentração populacional e um avançado conhecimento técnico, artístico e cultural. O arqueólogo Jefferson Paiva enfatiza que Santarém é vista como uma das primeiras áreas de ocupação humana no Brasil, o que a torna um local de grande relevância histórica.
A cerâmica tapajônica se destaca pela riqueza de detalhes, com decorações elaboradas e representações variadas de figuras humanas e animais. Entre os objetos mais emblemáticos estão os vasos de cariátides e os vasos de gargalo, que carregam histórias simbólicas profundas. Jefferson ressalta que existem pelo menos 27 modelos de vasos de cariátides, todos únicos e cheios de significados. “Cada vaso é uma narrativa à parte. Essas peças são registros de um universo simbólico que ainda estamos desvendando”, comentou.
Desafios da Memória Cultural
Documentos históricos indicam que a cerâmica tapajônica passou por um processo de destruição durante o período jesuíta, quando os artefatos foram considerados “idólatras” e associados a práticas demoníacas. Jefferson acredita que entender esse período é vital para resgatar a tradição cerâmica que foi interrompida. “É essencial valorizar e resgatar essas histórias que muitas vezes estão ausentes dos livros e do ensino formal. A destruição cultural impactou profundamente a memória coletiva e a continuidade desses saberes”, afirmou.
O secretário Emanuel Leite reforçou que valorizar a história local é crucial para fortalecer a identidade cultural e explorar o potencial turístico de Santarém, garantindo que as futuras gerações continuem a se conectar com suas raízes e tradições.
