Uma Fusão Cultural Inédita
Por Fabricio Araújo – O Rockeiro Paraense
No Brasil, a diversidade cultural é vasta, mas muitas vezes, permanece oculta. Isso é especialmente verdadeiro quando se trata das tradições do norte do país. O novo single “Boca Risonha”, fruto da colaboração entre Carlinhos Brown e o produtor Felipe Poeta, surge como um importante veículo de fortalecimento identitário e de promoção da cultura, inspirado no Marabaixo – um ritmo tradicional do Amapá, que se originou como uma forma de resistência negra à escravidão.
Mais do que uma simples mistura de estilos, “Boca Risonha” exemplifica como é possível dialogar respeitosamente entre diferentes manifestações culturais. A música estabelece uma conexão elegante entre tradição e contemporaneidade, criando um espaço onde os dois mundos se encontram.
Uma Produção Orgânica e Colaborativa
Em entrevista ao site Tenho Mais Discos Que Amigos, Felipe Poeta descreveu o processo de criação da música como algo fluido e colaborativo. “A construção foi acontecendo de forma orgânica”, explicou o DJ. Essa jornada criativa teve início em 2025, quando Felipe participou de expedições da Tha House Company no Amapá. Durante essas imersões, ele se envolveu na gravação do documentário “Amazônia Negra”, que contou com a participação ativa de Carlinhos Brown como pesquisador principal.
Foi nesse cenário que Poeta passou a descobrir o Marabaixo, entendendo-o como uma expressão musical que transcende as fronteiras regionais e se insere em uma rede maior da música brasileira. A experiência fez com que ele enxergasse o ritmo como parte essencial da sua própria formação musical.
Preservando a Essência do Marabaixo
Poeta revelou que durante a pré-produção, ao escutar um beatbox criado por Carlinhos Brown com a sonoridade do marabaixo, começou a idealizar como os sons eletrônicos do house poderiam se integrar àquela base rítmica. O produtor enfatizou a importância de manter a identidade do Marabaixo ao longo da produção, garantindo que a tradição não fosse apenas um elemento decorativo, mas sim a base sólida da canção.
Esse cuidado artístico fica evidente em “Boca Risonha”. Ao invés de reduzir o marabaixo aos padrões da música eletrônica, a produção convida o gênero eletrônico a se comunicar com esta expressão cultural. “Se retirarmos as percussões eletrônicas e a camada grave, ainda temos uma faixa tradicional”, resume Felipe.
Reflexões sobre Identidade Cultural
Através de sua letra e composição, “Boca Risonha” aborda temas que dialogam com a ancestralidade afro-amazônica, espiritualidade, quilombos e a conexão das comunidades com a natureza e suas memórias. A música provoca uma reflexão sobre como o Brasil se relaciona com suas diversas matrizes culturais.
A colaboração com Carlinhos Brown representa um marco significativo na trajetória de Felipe Poeta, que enaltece a experiência em estúdio e a convivência em Macapá (AP) com o artista baiano e grupos de marabaixo. “Isso abriu minha mente para outros ritmos e ampliou minha compreensão sobre a música brasileira. Sem dúvida, me ajudou a conhecer melhor o Brasil”, declara Felipe.
Um Convite à Curiosidade
Felipe expressou sua expectativa em relação ao lançamento da faixa, revelando que seu desejo maior é que pessoas fora do contexto do Marabaixo se sintam motivadas a explorar e investigar a cultura. “Para mim, como produtor, ver alguém que não conhece o Marabaixo se interessar pela música e buscar entender mais sobre essa cultura é a minha maior ambição”, afirma.
Assim, mais do que apenas um lançamento musical, “Boca Risonha” se propõe a funcionar como uma ponte para a curiosidade, valorização cultural e reconhecimento. Ao unir Carlinhos Brown, Felipe Poeta e artistas amapaenses em torno do marabaixo sem diluí-lo, o single reafirma que a verdadeira inovação nasce do respeito e da escuta atenta às nossas raízes.
