O Crescente Problema dos Erros Médicos no Brasil
O Brasil enfrenta um alarmante aumento nos erros médicos e nas respectivas ações judiciais envolvendo profissionais de saúde. Esse fenômeno levanta uma questão fundamental: o que está acontecendo com a medicina no país? A resposta, surpreendentemente, vai além da prática clínica e se inicia na educação médica.
De acordo com dados recentes do Conselho Nacional de Justiça, o número de processos judiciais relacionados a erros médicos cresceu mais de 500% entre 2023 e 2024, totalizando mais de 74 mil ações. Esse aumento não pode ser atribuído apenas à judicialização da saúde; ele indica um problema estrutural, intimamente vinculado à qualidade do ensino médico.
A Formação Deficiente dos Novos Médicos
Um dado preocupante revela que mais de 30% dos novos médicos se formam em cursos que são considerados insuficientes pelo próprio Ministério da Educação (MEC). O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) expôs essa realidade, ao revelar que, dos mais de 39 mil estudantes avaliados em 2025, cerca de 14 mil — quase três em cada dez — estão se graduando em instituições que receberam notas 1 e 2. Essas classificações são consideradas insatisfatórias pela metodologia do MEC, indicando que milhares de médicos estão prestes a ingressar no mercado sem as competências essenciais para exercer a profissão com segurança.
A situação se torna ainda mais preocupante quando se analisa o perfil dessas instituições. A maioria das faculdades que apresentam desempenho crítico pertence ao setor privado. Muitas delas estão localizadas em áreas sem hospitais de ensino adequados, com redes de saúde precárias, mas ainda assim cobram mensalidades exorbitantes, transformando a formação médica em um produto caro e de baixa qualidade.
Impactos Sociais e Econômicos
Além da deficiência técnica, a formação inadequada gera um impacto social e econômico significativo. Essas instituições, na verdade, enganam famílias inteiras, prometendo ascensão social por meio de um curso caro, mas sem a infraestrutura necessária para formar bons médicos. O resultado é um endividamento prolongado para as famílias e para os recém-formados, que saem da faculdade não apenas com dívidas elevadas, mas também sem a preparação necessária e sob pressão para atuar em um sistema de saúde que já está sobrecarregado.
Neste cenário problemático, todos saem perdendo: as famílias que investiram tempo e dinheiro; os jovens médicos, jogados ao mercado sem a devida preparação; o próprio sistema de saúde e, acima de tudo, a sociedade, que passa a depender de profissionais que se formaram em condições inadequadas. O mais alarmante é que esse ciclo vicioso coloca vidas em risco.
A Necessidade de Avaliação Rigorosa
Frente a esse quadro crítico, o Conselho Federal de Medicina e diversas entidades médicas têm se manifestado de forma enfática: é imprescindível frear a abertura indiscriminada de novos cursos, restringir a oferta de vagas e fechar instituições com conceitos 1 e 2. Além disso, é essencial que todos os cursos de Medicina em funcionamento no Brasil possuam, no mínimo, nota 4.
Essa abordagem de avaliação rigorosa deve ser aplicada a todos os profissionais, incluindo aqueles formados no exterior, que são avaliados pelo Revalida. Este exame é uma ferramenta vital para a proteção da população e não pode ser flexibilizado. Ele deve ser realizado de forma organizada e regular, anualmente.
A Importância da Avaliação para a Segurança dos Pacientes
Além disso, é fundamental que os médicos formados no Brasil também sejam avaliados. A sociedade tem o direito de garantir que todos os profissionais autorizados a exercer a medicina tenham uma formação que esteja em conformidade com a responsabilidade de cuidar de vidas.
Em meio a esse cenário preocupante, o Amapá surge como um exemplo positivo. O curso de Medicina da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) obteve nota 4 no Enamed, provando que é possível formar bons médicos na Amazônia, com seriedade e estrutura. O Conselho Regional de Medicina do Amapá reconheceu publicamente o desempenho do curso.
Atualmente, o estado já conta também com um curso privado de Medicina ativo, o que torna desnecessária a abertura de novas faculdades. O Amapá não precisa de mais cursos, mas sim de instituições que sejam responsáveis e comprometidas com a saúde da população.
O crescente índice de erros médicos não pode ser atribuído exclusivamente aos profissionais recém-formados. O verdadeiro problema reside em um modelo que permitiu a mercantilização do ensino médico, sem controle rigoroso de qualidade. A defesa de uma avaliação séria, de um Revalida robusto e do fechamento de instituições de ensino que não atendem aos padrões necessários não é um ato de corporativismo, mas uma questão de ética, responsabilidade sanitária e social.
A segurança dos pacientes começa na sala de aula, onde a formação de qualidade deve ser prioridade.
