Reflexões sobre a trajetória de Bolsonaro
Durante anos, Jair Bolsonaro construiu uma imagem pública fundamentada na brutalidade, promovendo a misoginia e a homofobia como se fossem virtudes, enquanto a grosseria se tornava a base de sua identidade política. O chamado ‘mito’ se consolidou em sua retórica agressiva, onde quanto mais baixo o tom, maior era a aclamação de seus seguidores. Este fenômeno não foi mera distração: tratou-se de uma estratégia deliberada, onde o deboche se transformou em programa e a crueldade, em sua linguagem cotidiana.
Em um momento crucial da política brasileira, durante o impeachment de Dilma Rousseff, Bolsonaro não apenas se absteve de votar, mas expressou seu desprezo pela história ao homenagear o coronel torturador Brilhante Ustra. Ao fazer isso, ele deixou claro que não era apenas um político provocativo, mas alguém que flertava com os aspectos mais sombrios do poder, considerando isso uma forma de coragem.
A Pandemia e a Futilidade das Respostas
A chegada da pandemia trouxe consigo uma tragédia inestimável: o luto de milhares de brasileiros. Entretanto, a resposta de Bolsonaro foi marcada por ironia e desdém. Ele minimizou a dor e o desespero alheios, tratando a crise sanitária como um espetáculo, onde a dor e a morte se tornavam piadas de mau gosto. Novamente, a figura que se apresentava como um líder forte revelou-se incapaz de demonstrar empatia, evidenciando uma desconexão com a humanidade que lhe cercava.
A Queda do Mito e a Busca por Anistia
Com o passar do tempo, a realidade se fez presente e, com ela, as consequências de suas ações. O mesmo Bolsonaro que desejava que Lula estivesse atrás das grades agora se via em uma situação inversa, buscando anistia. Sua transformação de um defensor da punição para um solicitante de clemência é emblemática: o homem que incitava a justiça dura para os outros agora clama por indulgência, pedindo um atalho para escapar de sua própria condenação.
Essa mudança de postura expõe uma hipocrisia gritante. Aqueles que defenderam a tortura e celebraram o porão não têm autoridade para solicitar misericórdia. O ex-presidente que não se importou com os torturados e que, ao contrário, glorificou o sofrimento, agora enfrenta as consequências de suas convicções. A ironia é que a frieza e a crueldade que ele tanto promoveu se voltaram contra ele.
O Legado e o Encontro com a Realidade
A atual encruzilhada moral é clara: quem passou anos desrespeitando a vida humana de seus opositores não pode exigir compaixão quando é a própria história que o condena. A expectativa de Bolsonaro de ver seus adversários encarcerados se transforma em uma realidade desconfortável à sua porta, onde ele agora é alvo de um sistema que um dia apoiou fervorosamente.
O desfecho da história de Bolsonaro não se limita a uma condenação judicial, mas sim a um desnudamento moral. Quando seus apoiadores lotavam as ruas e clamavam por sua liderança, ele reforçava o delírio coletivo. Contudo, ao se ver confrontado pela gravidade de sua situação, o ex-presidente deixou de ser um líder carismático para se tornar um homem que não reconhece aqueles que antes o adoravam. Na figura do ministro ali presente, ele não foi o comandante, mas o negador de si mesmo.
A Última Lição do Mito
Assim, a morte do ‘mito’ não se dá apenas pela condenação, mas pela traição à própria imagem que ele construiu. A bravura que um dia o caracterizou não se transforma em proteção contra as consequências de seus atos. A idolatria que ele alimentou não se traduz em absolvição judicial.
Por fim, ao se confrontar com a realidade, Bolsonaro revela que o porão que um dia homenageou sempre foi o reflexo mais verdadeiro de sua essência: um espaço obscuro, cruel e, ao final, vazio diante da responsabilidade que não pode mais ignorar.
