Cenário de Instabilidade no Oriente Médio
A escalada das tensões internacionais em março de 2026 levantou um alerta significativo no agronegócio de Santa Catarina. O fechamento de rotas marítimas estratégicas no Estreito de Ormuz, unido à continuidade das sanções no Leste Europeu, já está refletindo em impactos diretos sobre custos, logística e a previsibilidade no fornecimento de insumos para o Estado.
A atual instabilidade no Oriente Médio está elevando a competitividade do setor, ao aumentar os custos do frete marítimo, encarecer seguros e aumentar os riscos operacionais das exportações. De acordo com dados do Observatório Agro Catarinense, em 2025, as vendas do agronegócio catarinense para países diretamente e indiretamente afetados pelo conflito totalizaram aproximadamente US$ 915 milhões, valor que superou o destinado à União Europeia no mesmo período. Apesar da queda dos preços internacionais, os embarques físicos cresceram, especialmente para mercados como Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Israel.
Impactos nas Exportações e Riscos Logísticos
Segundo Roberth Villazon Montalvan, analista de socioeconomia e desenvolvimento agrícola da Epagri/Cepa, o Irã representa um dos maiores desafios para Santa Catarina atualmente. “Em 2025, houve uma diminuição de 1,3% no valor das exportações, mas um aumento notável de 57,7% no volume embarcado, que ultrapassou 151 mil toneladas. Isso implica o envio de grandes quantidades de grãos para uma zona de conflito ativo, o que eleva significativamente os riscos logísticos, financeiros e comerciais”, explica.
A interrupção das rotas no Estreito de Ormuz e no Mar Vermelho traz efeitos imediatos sobre a logística catarinense. Atrasos e desvios de navios afetam as operações dos portos de Navegantes, Itapoá e São Francisco do Sul, reduzindo a disponibilidade de contêineres refrigerados essenciais para as exportações de proteínas animais. O resultado disso é o aumento do frete marítimo e o risco de sobrecarga nas áreas portuárias e nas câmaras frias das agroindústrias do Estado.
Desafios nas Importações de Insumos
O conflito também amplia os riscos em relação às importações. Santa Catarina depende fortemente de fertilizantes e ureia para o cultivo do milho, base da alimentação das cadeias de aves e suínos. Países do Oriente Médio, como Omã, Catar, Bahrein, Arábia Saudita, Egito e Irã, estão entre os principais fornecedores desses insumos ao Brasil, o que torna o setor ainda mais vulnerável diante de possíveis bloqueios logísticos e do aumento dos preços do petróleo.
Com o encarecimento dos fertilizantes, do diesel e do transporte interno, as margens de lucro dos produtores rurais e dos frigoríficos ficam ainda mais comprimidas. Além disso, existe o risco de alterações unilaterais nas tarifas de importação por parte de países da região, em um contexto de alta instabilidade geopolítica. O Brasil mantém acordos comerciais através do Mercosul com mercados estratégicos como Israel e Egito, além de negociações com o Líbano, o que pode ajudar a mitigar a exposição do agronegócio catarinense a decisões repentinas de países que não possuem acordos comerciais vigentes.
Reflexos no Mercado Financeiro e Alternativas de Suprimento
No mercado financeiro, os efeitos já são visíveis. O Ibovespa registrou uma queda de 4,99%, e a pressão cambial trouxe o dólar a cerca de R$ 5,20, complicando o planejamento da próxima safra. Entretanto, essa alta cambial pode aumentar a receita em reais das exportações que consigam ser redirecionadas. No mercado interno, cresce a preocupação com o excesso de oferta de proteína animal, caso os embarques sejam interrompidos, o que pode pressionar preços, margens e a capacidade de armazenamento frigorificado.
Frente a esse quadro, alternativas para o fornecimento de fertilizantes estão ganhando destaque, com Marrocos, Canadá e China despontando, mesmo sem acordos preferenciais com o Brasil. “O momento exige que o setor produtivo catarinense intensifique o planejamento de estoques de insumos e busque diversificar rotas comerciais. A manutenção do rigor sanitário continua sendo o principal ativo de Santa Catarina para garantir acesso a mercados menos voláteis em tempos de crise”, conclui Villazon Montalvan.
