Marabaixo: tradição e resistência nas vozes das guardiãs
“O Marabaixo é vida, é a poética negra de improvisação dos versos de cada dia, é o ato ritualístico que representa a vida negra a cada batida da caixa de marabaixo entoada nos versos dos ladrões, das cantadeiras negras que historicizam a vida; a história afro-amapaense no cancioneiro negro popular do Amapá”. Essa definição do escritor paraense Francisco Borges revela a importância cultural profunda do Marabaixo, manifestação reconhecida como patrimônio imaterial do estado do Amapá e da cultura brasileira. Essa riqueza é tema central do livro memórias de velhas sobre a manifestação cultural do Marabaixo na Amazônia Amapaense, lançado durante a 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, no estande do Instituto Federal do Pará (IFPA), em Belém.
Relatos que resgatam a história das mulheres marabaixeiras
A obra reúne relatos de cinco mulheres marabaixeiras, consideradas guardiãs do patrimônio amazônico, e propõe um olhar íntimo sobre essa expressão cultural. Francisco Borges, que é escritor, poeta, letrólogo e crítico cultural afro-amazônida, convida o leitor a conhecer o Marabaixo como um ato ritualístico que traduz o cotidiano e a tradição ancestral das comunidades da região.
Doctorando em Letras pela Universidade Federal do Pará (UFPA), mestre em Letras pela Universidade Federal do Amapá (Unifap) e em Linguagens e Saberes na Amazônia pela UFPA, Borges assina o livro em parceria com a orientadora acadêmica Raquel Amorim dos Santos, doutora em Educação pela UFPA e pós-doutora em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Memórias de Velhas mescla pesquisa acadêmica, memória histórica e poesia para reafirmar o Marabaixo como símbolo de resistência, identidade e pertencimento do povo negro no Amapá.
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Pesquisa e memória em torno do Marabaixo
A pesquisa que originou o livro se baseou na Teoria da Memória Histórica e na História Oral, reunindo entrevistas, registros fotográficos e relatos colhidos durante a pandemia da Covid-19. O autor destaca que o livro dialoga com estudiosos da cultura afro-amapaense, mostrando como o Marabaixo é uma expressão viva de fé, resistência, tradição e continuidade ancestral.
O trabalho percorreu territórios de preservação afro-cultural no Mazagão Velho, Quilombo do Curiaú, bairro do Laguinho e a antiga Favela, hoje Santa Rita. Nesses locais, foram coletadas as narrativas das guardiãs Tia Joca, Tia Zefinha, Tia Zefa do Quinca, Tia Biló e Tia Zezé Libório. Essas mulheres compartilham histórias de resistência e memórias afro-amazônicas que ajudam a compreender o papel cultural e histórico do Marabaixo.
A trajetória do autor e sua ligação com a cultura afro-amapaense
Francisco Borges nasceu em Parauapebas, no sudeste do Pará, e enfrentou uma infância e juventude marcadas por dificuldades. Mesmo assim, conseguiu avançar nos estudos e ingressou no curso de Licenciatura Integrada em Letras – Português e Inglês, na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), aos 19 anos, tornando-se professor.
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Ao longo da carreira, Borges lecionou em diversas cidades do Pará e do Amapá, incluindo a Escola Bosque Eidorfe Moreira, em Belém, e campi da UFPA no interior do estado. Além do livro sobre o Marabaixo, ele contribuiu com publicações que exploram a cultura afro-amapaense, infâncias e práticas culturais, com destaque para contos e capítulos em coletâneas e livros acadêmicos entre 2021 e 2023.
Circulação cultural e preservação do patrimônio
O lançamento do livro no estande do Instituto Federal do Pará (IFPA) durante a Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes reforça a circulação e o reconhecimento da cultura afro-amapaense na região. A obra oferece uma oportunidade para ampliar o conhecimento sobre o Marabaixo, sensibilizando leitores e pesquisadores para a importância de preservar essa manifestação que traduz a história e a identidade do povo negro no Amapá.
Além da valorização histórica, Memórias de Velhas estimula o diálogo entre comunidades e o público mais amplo, contribuindo para o fortalecimento da memória coletiva e o protagonismo das mulheres na preservação do patrimônio cultural.
