Um Legado de Cem Anos
O jornal O Imparcial, fundado há exatamente cem anos, é mais do que uma simples publicação; é uma parte vital da vida de muitos, incluindo a minha. Ao longo das décadas, esse periódico, que faz parte dos Diários Associados, não apenas documentou a história do Maranhão, mas também se entrelaçou com minha própria trajetória profissional e pessoal. Ao rememorar essa data significativa, sinto que é um momento oportuno para compartilhar um pouco da minha história com O Imparcial.
Como jornalista, iniciei minha carreira com apenas 17 anos de idade, em 1946, quando o jornal completava 20 anos de existência. Naquela época, éramos apenas jovens em busca de uma oportunidade. Ao me inscrever em um concurso de reportagem promovido pela redação, não imaginava que um texto sobre a Quinta do Barão me levaria a conquistar o primeiro lugar e uma vaga como repórter. Esse foi o meu primeiro contato com o universo jornalístico, que mesmo com suas dificuldades, me parecia uma verdadeira aventura.
O primeiro cargo que ocupei foi o de Repórter Policial, uma função que, embora desafiadora, me proporcionou experiências inesquecíveis. Juntamente com meu amigo e fotógrafo Azoubel, passávamos as madrugadas visitando delegacias, apurando ocorrências, e mesmo que enfrentássemos situações tensas, era como se vivêssemos um filme. Era assim que eu via minha nova realidade. Eu era o ‘Foca do Jornal’, um termo que designava os jornalistas em início de carreira. Aqueles momentos foram fundamentais para moldar minha trajetória como repórter e, mais tarde, como secretário e editorialista. Um fato marcante foi meu relacionamento com Pires de Saboia, o então diretor do jornal, que se tornou um grande amigo e mentor.
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Fonte: aquiribeirao.com.br
Impacto Cultural e Político
O Imparcial não só me deu a oportunidade de começar minha carreira, mas também foi o palco onde lidei com grandes nomes da cultura e política do Maranhão. Quando fui eleito governador, Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados, escreveu um artigo sobre mim intitulado “O Governador Policial”, um rótulo que, de certa forma, me acompanhou por muito tempo. Foi uma vitória significativa, não apenas em termos políticos, mas também na minha evolução cultural, já que assumi a editoração do Suplemento Literário, que deu espaço a jovens talentos e promoveu o neomodernismo no estado.
Entre os poetas e escritores que passaram por nossas páginas estavam Lago Burnett, Carlos Madeira e Ferreira Gullar, figuras que hoje são referências na literatura nacional. Também estabelecemos conexões com outros movimentos culturais importantes do Brasil, desde a década de 1940 até os dias atuais. Minha amizade com Odylo Costa, filho, é uma das mais queridas que construí ao longo do tempo, um laço que se estende por gerações.
Desafios e Reconhecimento
O fundador de O Imparcial, J. Pires, foi uma figura central na história do jornal, embora nossa relação tenha sido estritamente profissional. Ele era um homem de hábitos que se destacava, como acionar sirenes e deixar lousas com notícias da guerra na porta do jornal. Com o passar do tempo, o jornal se adaptou e se tornou um veículo que, apesar das vicissitudes, cumpriu com seu papel de informar e formar opinião.
Trabalhei ao lado de jornalistas de destaque, como Nascimento de Morais e Amaral Raposo, que deixaram sua marca na história do jornalismo maranhense. O Imparcial se firmou como um veículo independente, influenciando a política local e documentando a vida cotidiana do estado, servindo como um rico acervo de memórias coletivas.
Reflexões Finais e Gratidão
Às vésperas de completar 96 anos, continuo escrevendo semanalmente para os Diários Associados e publicando minhas crônicas em diversos veículos. Ao longo da minha carreira, já produzi oito livros, e ainda tenho obras inéditas prestes a serem lançadas. O que mais me emociona é a nítida conexão que tenho com O Imparcial e como sua redação moldou meu olhar sobre o mundo. A saudade do cheiro do papel e dos sons da redação sempre me acompanha, e me faz lembrar que, naquele pequeno espaço, contribuímos para a construção da história de um país.
Hoje, ao celebrar o centenário de O Imparcial, sinto uma profunda gratidão por tudo o que vivi e aprendi. Que venham mais cem anos e que este jornal continue a ser um farol de informação e liberdade, tão essencial quanto sempre foi. Cem anos de história! Salve O Imparcial!
