Uma Jornada Difícil
No início da tarde do dia 30 de maio, às 12h45, chegava ao aeroporto de Confins, que muitos dizem ser em Belo Horizonte, mas que para mim parecia estar em um ponto afastado do mundo. No dia anterior, havia chegado de Nova York após uma parada em São Paulo, com destino a BH pela companhia aérea Azul. O que deveria ser uma viagem tranquila logo se tornaria um verdadeiro desafio.
Meu check-in estava completo, com duas bagagens despachadas: uma grande e uma pequena mochila, conforme a orientação de minha filha, Duda, que não perde a oportunidade de tomar as rédeas da situação. Afinal, quem precisa de autonomia quando se tem uma filha que adora mandar, não é mesmo?
Aproveito para compartilhar que, aos 84 anos e enfrentando um câncer que, embora grave, considero ridículo, vivo com desafios diários. Minha coluna cervical foi substituída por um conjunto de fios de arame e um pequeno amortecedor de titânio. Com movimentos limitados e visíveis, posso me comparar a um Robocop, só que, sem falsa modéstia, acredito que sou um pouco mais atraente.
Após uma breve despedida e muitos beijos trocados com Duda, enfrentei meu caminho ao embarque. O check-in estava localizado em uma ponta do que deveria ser um aeroporto, enquanto o setor de embarque estava em outro andar. A distância, embora pareça curta, se torna um verdadeiro calvário para alguém com minha idade e problemas de saúde.
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Desafios no Aeroporto
Logo me vi cercado por seguranças e escaneando o ambiente, como se tivesse adentrado uma escola de samba. O que era um simples procedimento de segurança logo se transformou em uma verdadeira saga. O funcionário, com um olhar impassível, pediu que eu retirasse os sapatos – um desafio a mais para o meu estado atual. A revista, com luvas de plástico, era mais invasiva do que eu poderia imaginar. Mas, em um tom de brincadeira, deixei claro que o toque na parte de trás não estava nos planos.
Desembarcado, segui meu caminho em direção ao portão, que, surpreendentemente, ficava em uma área remota, quase como se eu estivesse em um shopping ao invés de um aeroporto. Com tantas lojas e quiosques, a sensação era de estar em um mercadão, onde até linguiças apareciam entre os produtos.
Finalmente, ao me acomodar em frente ao portão 7, fui informado de que teria que descer algumas escadas para o portão 8. Se havia recebido tratamento digno até ali, para minha cidade, Governador Valadares, a mordomia parecia ter se esgotado. E, como se não bastasse, ainda teria que enfrentar mais uma parte da jornada de ônibus, já que o avião parecia estar escondido.
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Pela 13h35, a moça do microfone anunciou meu nome, e ao me aproximar, com um olhar de pena, informou que uma segurança havia identificado uma pilha em uma de minhas malas, algo supostamente proibido. Com um gesto de incredulidade, questionei sobre a possibilidade de perder o voo, e a atendente, com um sorriso travesso, garantiu que seria rápido.
Desci novamente, já perguntando onde estava minha mala. Era irônico pensar que tudo o que havia passado pelos Estados Unidos, Nova York e finalmente chegado a Belo Horizonte, estivesse agora sob suspeita. E, para minha frustração, a confirmação de que não havia nenhuma bateria em minhas bagagens.
A Frustração Aumenta
Às 14 horas, minhas malas ainda estavam desaparecidas, e minha paciência começou a se esgotar. Quando finalmente aparece a mochila, a atendente com um semblante autoritário pediu para conferir se eu autorizava a abertura. Sem hesitar, concordei, mas solicitei que não acrescentassem nada ao que estava dentro. Após alguns minutos, ela devolveu a mochila, alegando que se tratava de um engano, sendo apenas uma tomada para um cristal. Mas a grande mala, onde estava a verdadeira “culpada”, permanecia sumida.
Por volta das 16h30, a impaciência tomou conta. Não queria mais saber de voar ou de qualquer conexão com a Azul. Recebi um papel informando que a mala havia desaparecido e que a empresa não se responsabilizaria pelo voo perdido. Era como se me dissessem que eu deveria aceitar a situação e seguir em frente, enquanto sentia a indignação crescendo dentro de mim.
A essa altura, minha filha Duda, com seu jeito carinhoso, tentava me consolar, mas o meu humor estava irremediavelmente arruinado. As frustrações acumuladas me levaram a refletir sobre como o sistema poderia ser melhorado. A falta de fiscalização sobre as companhias aéreas e os aeroportos era um absurdo. Afinal, em Belo Horizonte, uma única empresa domina tanto o aeroporto internacional quanto o regional, resultando em um verdadeiro monopólio.
Antes de a situação se agravar ainda mais, outra filha, Camila, apareceu com o carro para me buscar. Ao me aproximar, um policial, em um tom arrogante, exigiu que retirasse o veículo do local sob ameaça de multa. Entendi que a autoridade deve ser exercida, mas gritar e agir com prepotência não era necessário. A situação exigia um olhar mais humano.
No final, apesar dos desafios e do desgosto, pude contar com o apoio das minhas filhas. A vida tem suas adversidades, mas a resiliência é fundamental. E, com certeza, a Azul não é mais uma companhia que desejo utilizar, pois aprendi que, em algumas situações, é melhor voltar a andar a pé do que se deixar levar por experiências frustrantes.
