Impactos do Acordo UE-Mercosul no Agronegócio
Após mais de 25 anos de negociações, o acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul está prestes a se concretizar. Este ano, a expectativa é que, além de trazer repercussões diretas para a economia brasileira, a nova parceria incentive a busca por crédito no agronegócio. Espera-se que a emissão de títulos no mercado de capitais aumente, refletindo mudanças significativas nas estruturas existentes.
Embora o acordo ainda precise ser avaliado pelo Senado europeu, ele deve entrar em vigor de forma provisória a partir de maio. Profissionais do setor acreditam que isso pode impulsionar a emissão de títulos de crédito, visando fomentar a produção agrícola e transformando a forma como o agronegócio aborda informações, especialmente em relação a critérios ambientais, sociais e de governança (ESG).
A Necessidade de Investimentos em Tecnologia
Marina Costa, especialista comercial na Vórtx, destaca que as exigências rigorosas em termos de rastreabilidade e padrões fitossanitários impactarão toda a cadeia produtiva. “Esse cenário exigirá investimentos significativos em tecnologia e conformidade, o que implica em uma busca contínua por recursos financeiros”, explica. Ela prevê que o resultado será um aumento nas operações estruturadas voltadas para esses investimentos.
Para que os produtores possam acessar o mercado externo, com suas amplas oportunidades de crescimento, será necessário realizar mudanças estruturais, principalmente no manejo das culturas, o que demanda um aporte financeiro considerável. “Acredito que, a curto prazo, haverá uma busca intensa por capital, enquanto que, em médio e longo prazo, veremos operações mais estruturadas que utilizarão contratos de exportação como garantia”, opina Marina.
Instrumentos Financeiros para o Agronegócio
Embora as expectativas sejam otimistas, é importante ressaltar que os resultados não serão imediatos. Isso demandará uma adaptação total da cadeia produtiva, uma tarefa que grandes empresas e emissoras já consolidadas estão melhor posicionadas para enfrentar. Neste contexto, instrumentos financeiros como Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e Cédulas de Produto Rural (CPRs) se mostram especialmente adequados.
Adenauer Rockenmeyer, conselheiro do Corecon-SP, observa que os maiores produtores já se beneficiam desses mecanismos, especialmente nas operações de exportação. “É imprescindível que o acordo também promova uma harmonização das exigências ambientais entre a UE e o Brasil”, ressalta. Ele também aponta que as CPRs têm potencial para incluir cláusulas que atendam a critérios de sustentabilidade, facilitando ainda mais a exportação de produtos agrícolas brasileiros.
Oportunidades para Pequenos e Médios Produtores
Luiz Carlos Corrêa, head de alocação e sócio da Nexgen Capital, alerta que a oferta de crédito pode não ocorrer rapidamente, dado o cenário atual do setor. No entanto, ele acredita que o acordo UE-Mercosul será bastante benéfico, especialmente para setores com alto potencial de crescimento, como o agronegócio de proteína e sucroenergético. “Diante da escassez de crédito, instrumentos como as CPRs, com garantias reais, devem se tornar mais atrativos para os investidores”, afirma.
O especialista frisa que, para pequenos e médios produtores, as CPRs ‘Verde’ podem não ser viáveis de imediato, considerando as exigências que o acordo impõe. Contudo, a tendência é de um crescimento contínuo no financiamento do agronegócio através do mercado de capitais brasileiro, favorecendo um estreitamento das relações entre a UE e o Mercosul.
Preparação para os Novos Desafios
Antônio da Luz, economista-chefe da EcoAgro, projeta que no futuro veremos um aumento na emissão de CRAs, FIAGROS e operações estruturadas de crédito, com um crescente interesse dos investidores europeus. “A nova dinâmica criada pela formação do bloco proporcionará novas oportunidades de negócios”, acredita. Os especialistas também concordam que, devido às exigências europeias em relação a critérios de elegibilidade, o Brasil terá que evoluir em questões de conformidade, especialmente em seus compromissos com ESG.
“Teremos que nos preparar para demonstrar a um público exigente que estamos operando de forma transparente e correta, produzindo benefícios não apenas financeiros, mas também ambientais”, conclui Luz. Nesse sentido, o ESG deixará de ser um diferencial e se tornará uma exigência. Questões como cadastro ambiental regular, ausência de processos administrativos relacionados ao desmatamento e comprovação de práticas sustentáveis se tornarão cada vez mais comuns. Monitoramentos, como o rastreamento de gado via satélite, provavelmente serão incorporados às operações comerciais.
No entanto, existem preocupações de que o pequeno e médio produtor possa ser excluído dos benefícios do acordo, justamente pela dificuldade em se adaptar a essas novas exigências.
