Uma Nova Visão do Caçador de Marte
Se o artista americano Roy Lichtenstein trouxe os quadrinhos para o mundo da arte, o ilustrador espanhol Javier Rodríguez os reinventa em suas páginas, criando histórias vibrantes e surpreendentes. Um exemplo disso é a obra “Absolute Caçador de Marte” (Panini), onde ele colabora com o roteirista Deniz Camp para dar uma nova vida ao icônico personagem da DC Comics, J’onn J’onzz, que já foi chamado de Ajax em nosso país.
Assim como outros heróis da editora, como Batman e Superman, o marciano criado em 1955 por Joseph Samachson e Joe Certa recebe um reboot que o insere em uma realidade mais sombria e cheia de nuances. Nesta nova narrativa, os super-heróis enfrentam um contexto social e político hostil, muitas vezes sem os recursos e aliados que tradicionalmente lhes conferem força. Em seu universo, Bruce Wayne não é um bilionário, mas um trabalhador comum sem mordomo. A Mulher-Maravilha, em vez de ser criada pelas amazonas, surge das mãos de uma bruxa no inferno.
Sucesso de Vendas e Abordagens Inovadoras
A linha Absolute se destaca como um dos sucessos editoriais mais expressivos dos últimos anos, com impressionantes 12 milhões de cópias vendidas, conforme aponta o The Hollywood Reporter. Essas histórias não apenas reimaginam origens, mas também colocam personagens clássicos em dilemas inéditos, além de apresentá-los a um público que, muitas vezes, os vê com desconfiança.
Na narrativa de Camp e Rodríguez, J’onn J’onzz se transforma em uma entidade marciana que invade a mente de um policial atormentado chamado John Jones. À medida que crimes inquietantes ocorrem na cidade, as barreiras entre identidade, memória e consciência começam a se desfazer, expondo um protagonista dividido entre sua verdadeira essência alienígena e as fragilidades do seu hospedeiro humano.
Rodríguez, que estará presente no Brasil no final do ano para a Comic Con Experience (CCXP), compartilha que o convite para desenhar o marciano surgiu enquanto ele ainda finalizava a arte de “Zatanna: quebrando tudo” (Panini), uma obra que conquistou o prêmio Eisner de melhor série limitada no ano passado e foi escrita por Mariko Tamaki.
— Deniz imaginava os pensamentos dos personagens como uma fumaça colorida que saía das orelhas das pessoas — conta Rodríguez, aos 53 anos. — O Caçador de Marte, que originalmente era um ser de múltiplas formas, fazia parte dessa fumaça.
Processo Criativo e Paleta de Cores
Em busca de capturar a essência do personagem, Rodríguez optou por explorar as cores clássicas de J’onn J’onzz, que incluem uma base verde, complementada por azul, vermelho e amarelo. Essa paleta foi elaborada com a intenção de que os leitores reconhecessem imediatamente as cores associadas ao personagem.
— Depois de estabelecer essa base, criei uma paleta com mais três cores complementares, que proporcionassem um grande impacto visual na página. Assim, quando as cores da fumaça dos pensamentos aparecem, elas criam um contraste vibrante com as cores ao redor — explica o artista.
O resultado visual de “Absolute Caçador de Marte” é impressionante. No entanto, o que também chama a atenção é a ousadia de Rodríguez na reinterpretação física de J’onn J’onzz.
— Para o Caçador de Marte, sabia que deveria criar algo realmente impactante, já que ele compartilharia cenas com Batman, Superman e Mulher-Maravilha. Então, optei por um design radical — detalha Rodríguez em um e-mail. — Para isso, deixei minha zona de conforto e pedi ajuda a um amigo sobre como modelar em 3D. Ele me sugeriu: “Use massinha infantil.” Assim, comprei dois quilos de massinha verde e criei várias figuras até encontrar o design ideal. A ideia era criar um único olho, um cíclope, um farol, uma fechadura, uma grande mancha vermelha que evocasse uma sensação ancestral.
Exploração de Personagens Femininas
Reconhecido por seu talento em desenhar personagens femininas, Rodríguez também já trabalhou com figuras icônicas não apenas da DC, mas também da Marvel, como Mulher-Aranha, Gata Negra e Spider-Gwen, cada uma pertencente ao universo do Aranha.
— Eu vejo as personagens femininas com curiosidade, buscando aprender com elas — afirma o ilustrador. — Acredito que a chave para construir um personagem crível está em fazer muitas perguntas antes, assim como faria um leitor. A partir das respostas, decido o que mostrar e o que omitir para facilitar a narrativa.
Antes de se consolidar no mercado de quadrinhos dos Estados Unidos, Rodríguez trabalhou em seu país natal em publicações como a tradicional “El Víbora”. Para ele, não existem grandes diferenças entre os trabalhos:
— Encaro todos os projetos da mesma forma. O que quero contar? Para quem? Na “El Víbora”, eram capítulos mensais de 8 ou 10 páginas, enquanto nos quadrinhos costumam ser cerca de 20. Procuro abordar ambos com a mesma mentalidade. O que têm em comum? O que os torna únicos? Após compreender isso, busco explorar ao máximo as limitações de cada formato. Trabalhar com a linguagem de forma pura é o que mais me inspira.
