Desafios da Inteligência Artificial no Ensino Superior
MANAUS – Elissandro Fernandes, estudante da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), de apenas 25 anos, compartilhou uma experiência comum entre seus colegas: o uso excessivo de inteligência artificial generativa (IAG) para tarefas acadêmicas. Ele, assim como muitos outros, percebeu que essa prática estava afetando sua autonomia. “Acredito que a IA pode, de certa forma, ‘sabotar’ o cérebro e o senso crítico do estudante, principalmente quando é usada de maneira excessiva. Já me senti assim quando eu recorria à IA para praticamente tudo”, relata Elissandro.
Rafaela Silveira, estudante da UNIFAP (Universidade Federal do Amapá), também sentiu a necessidade de controlar o uso da tecnologia. “Eu visualizei um problema. Não conseguia mais fazer as coisas sozinha, caso eu tivesse inteligência artificial comigo. Eu falei ‘opa! E se eu não tivesse ela comigo?’ Simplesmente deixei a inteligência artificial de lado e voltei para os meus livros”, conta a jovem de 21 anos.
As plataformas de IAG, como ChatGPT, Gemini e Microsoft Copilot, têm a capacidade de gerar ideias, textos e trabalhos acadêmicos em questão de segundos, baseando-se nas informações que recebem durante seu treinamento. Contudo, o uso dessas ferramentas nas salas de aula tem gerado novos desafios para o aprendizado. O risco é que os estudantes acabem substituindo sua própria capacidade de pensar, interpretar e criar por conteúdos gerados automaticamente.
A Leitura e a Interpretação Sob Ameaça
O professor Hélder Mourão, da Universidade Federal do Amazonas, destaca que a IAG muitas vezes é utilizada não como uma ferramenta de apoio, mas como um substituto do trabalho intelectual. Ele observa que isso resulta em um empobrecimento da leitura e da capacidade de produção textual. “Essa substituição empobrece a pessoa e o resultado final”, afirma Mourão, alertando sobre a necessidade de培养amento acadêmico adequado para o uso responsável da IA.
A dependência da IAG pode ser exacerbada pela facilidade com que essas plataformas produzem conteúdos. Mourão ainda menciona a falta de capacitação nas universidades e a necessidade de implementação de protocolos para verificar se as tarefas estão sendo realizadas por ferramentas digitais. Essas iniciativas visam proteger o desenvolvimento crítico dos alunos, que pode ser prejudicado pela banalização do uso da tecnologia.
Regulação e Diretrizes para o Uso de IA
Um estudo recente da OpenAI, responsável pelo ChatGPT, revelou que, em 2025, a plataforma recebia cerca de 140 milhões de mensagens diárias de brasileiros. Cada vez mais, o uso da IA se tornou um hábito que impacta a produtividade e o aprendizado acadêmico. A ANDIFES (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) indicou que quatro em cada dez universidades federais já discutem ou elaboram diretrizes sobre o uso da IA no ensino superior.
O debate sobre a regulamentação da IA no ensino no Brasil ganhou força e foi levado à pauta do CNE (Conselho Nacional de Educação). Entre as propostas discutidas, estão a criação de regras que garantam a transparência no uso da ferramenta e o preparo dos estudantes para interagir com análises de dados realizadas por robôs. Além disso, a inclusão da IA no aprendizado por meio de letramento digital é uma prioridade nas discussões.
O Papel da Inteligência Artificial na Educação
Em março, o Ministério da Educação emitiu orientações para instituições de ensino básico sobre o uso da IA. A ideia é que os estudantes aprendam a usar a tecnologia desde o ensino fundamental. Para o ensino superior, o CNPq (Centro Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) lançou a nova Política de Integridade na Atividade Científica, que estabelece que o uso de IA nos trabalhos acadêmicos deve ser declarado para evitar sanções, incluindo a suspensão de bolsas de pesquisa.
Leonardo Zenha, professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) e coordenador de um grupo de trabalho sobre o tema na ANPED (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação), destaca que as regulamentações são recentes e ainda precisarão de tempo para refletir na prática. “Há uma série de documentos sendo discutidos, e isso demanda um tempo para que as diretrizes sejam assimiladas nos espaços educativos”, menciona Zenha.
Usando a IA de Forma Consciente
Na comunidade acadêmica, a visão é que a IAG deve ser utilizada como um suporte para esclarecer dúvidas e otimizar a gestão do tempo, mas não para substituir a capacidade intelectual dos alunos e docentes. João Felipe Chaves, estudante de Direito de 26 anos, utiliza a IA de maneira consciente: “Eu aprendo montando o trabalho na IA. Mas não deixo a opinião da IA me influenciar”, afirma.
Timóteo Camargo César, professor da UFRR (Universidade Federal de Roraima), desenvolveu estudos sobre ética no uso da inteligência artificial e alerta para o desafio de empregar a tecnologia sem comprometer o aprendizado. Ele introduziu um método tradicional de escrita em suas aulas para enfatizar a importância da prática manual. “O aluno precisa dominar o uso da IA. Ele não pode ser refém da ferramenta. Deve ser uma relação produtiva, não restritiva”, conclui Timóteo.
A ABMES (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior) também se manifestou, indicando que mais de 70% das instituições privadas de ensino superior veem a IA como uma ferramenta de suporte à aprendizagem. A associação afirmou que o foco deve estar na revisão das práticas pedagógicas e avaliativas, priorizando a autoria e o pensamento crítico, enquanto busca um debate responsável sobre o avanço da tecnologia na educação superior.
